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DICIONÁRIO
POLÍTICO
Estes verbetes foram pesquisados por Maurício Assumpção
Moya, Bacharel em Ciências Sociais e Mestre em Ciência
Política pela Universidade de São Paulo.
Se você tem dúvidas ou não encontrou algum verbete
aqui, escreva para
institutoagora@yahoo.com.br
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U V
AÇÃO
A relevância de se estudar a ação em sua forma genérica a partir
de uma perspectiva maior que a individual se deve à idéia de que
toda a sociedade é construída através das pessoas e das suas ações
individuais. A sociedade, apesar de poder influenciar o comportamento
de toda pessoa, não tem corpo próprio, e precisa dos indivíduos
para se expressar. A compreensão do funcionamento da sociedade passa
portanto pela compreensão das atitudes de seus membros. Mas será
possível que quaisquer ações, das mais comuns às mais raras, realizadas
individualmente ou em conjunto, tomadas no seu sentido amplo de
manifestações, movimentos ou atitudes perceptíveis, podem ser analisadas
ou simplesmente consideradas dentro do universo da Sociologia? Não,
é claro que não. Tratando-se de uma ciência que tem sociedades como
alvo de estudos, terão a atenção da Sociologia aquelas ações que
apresentem características que permitam identificar padrões e significados
definidos socialmente, isto é, que façam referência direta ou indireta
a sociedade ou precisem dela para ser explicadas e entendidas completamente.
Desta forma, mesmo a ação isolada de apenas uma pessoa, como por
exemplo dar uma esmola ou ler um jornal, pode ser interpretadas
sociologicamente, uma vez que envolve valores e idéias que não se
resumem a personalidade individual. Ainda que hajam motivos pessoais
para fazer uma caridade ou procurar um emprego, sob alguns aspectos
essas ações apresentam-se vinculadas a padrões mais amplos, compartilhados
com outras pessoas, e que só podem ser compreendidos quando consideramos
o meio social em que eles ocorrem. São comportamentos em parte derivados
de valores socialmente difundidos - no caso a solidariedade e o
trabalho - e em parte originados de seus próprios desejos e expectativas.
Assim, para entender tais comportamentos da forma mais completa
é necessário reconstruir tanto o ambiente social quanto psicológico
do agente. E é justamente devido a esta dimensão da ação cuja origem
escapa à vontade individual que ela se inclui nos temas fundamentais
da Sociologia, sob a denominação específica de ação social. Mais
do que simples espontaneidades, as ações sociais muitas vezes revelam
significados assimilados pelo indivíduo que estão mesmo na estrutura
da sociedade. Pode-se dizer que a partir dessas ações percebe-se
a presença "invisível" da sociedade. No caso citado da procura por
um emprego, é fácil perceber que um dos componentes que levam a
pessoa a agir dessa forma é estabelecido pela sociedade, fora da
individualidade: é socialmente desejável que as pessoas trabalhem
para sobreviver. O valor "trabalho", entendido como essencial para
um grupo social, é internalizado pelos seus membros e levam-nos
a procurar uma ocupação. Ainda deve-se ter bem claro que, mesmo
quando são amplamente influenciadas pela sociedade e seus valores,
as ações não podem ser reduzidas a condicionamentos. Por mais rigorosa
e regrada que uma sociedade possa ser para com a ação de seus membros,
sempre há de ser considerada a existência de espaços para inovação
e improviso individuais. Ainda no exemplo do trabalho, apesar da
sua necessidade ser imposta pela sociedade, cada um pode escolher
como e onde vai trabalhar, o que dependerá tanto de suas aptidões
pessoais como das oportunidades que surgirem.
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AÇÃO
COLETIVA
Este termo foi difundido por Olson, que o utilizou para discutir
o comportamento típico de um indivíduo utilitarista, isto é, que
age segundo seu próprio interesse, buscando sempre maximizar seu
benefício pessoal dentro de associações organizadas. Para Olson,
o objetivo das associações, sejam elas de moradores de um bairro,
sindicatos ou clubes, é sempre promover os interesses comuns de
seus membros. Todos eles são tratados da mesma maneira pela organização,
o que significa que quando um resultado é alcançado pela associação,
nenhum de seus membros pode ser excluído dos benefícios trazidos
por ele. A argumentação de Olson segue a seguinte linha de raciocínio:
primeiro é preciso admitir que, por mais variados que possam ser
os desejos humanos, eles podem ter pontos em comum; num segundo
momento, os homens reconhecem ter interesses comuns, o que Marx
chamaria de adquirir "consciência"; a partir desses interesses comuns
os homens planejam uma atuação coordenada para alcançá-los. Esta
atuação coordenada que tem origem num reconhecimento consciente
de interesses comuns recebe o nome de ação coletiva. É importante
ressaltar que a ação coletiva é portanto composta por ações racionais
(com referência a fins ou a valores). São exemplos de ação coletiva
as passeatas, os pedidos "abaixo-assinados", as greves. Para ser
classificada como coletiva, a ação não precisa ser executada diretamente
por todos os membros da organização. Uma greve não deixará de ser
ação coletiva (ainda que tenha sua eficácia diminuída) se uma parte
dos trabalhadores não aderir a ela. Em outros casos, se a organização
contar com uma equipe de apoio, uma burocracia, algumas tarefas
de interesse coletivo podem ser transferidas para o(s) ocupante(s)
de cargo(s) naquela equipe, que ao realizá-la estará representando
uma ação coletiva. Olson então estabelece três situações teóricas
(ou ideais) em que os indivíduos podem estar frente a ação coletiva.
A primeira é aquela em que os membros do grupo não adquiriram consciência
do interesse comum, ou já o fizeram mas os custos da ação são maiores
que os benefícios que ela trará. Esse é um grupo latente, onde a
possibilidade de ação coletiva é nula. A segunda situação é aquela
em que os membros já compartilham objetivos, mas os custos para
sua obtenção são da mesma intensidade dos benefícios que ela trará.
São grupos semi-organizados, onde a possibilidade de ação é baixa.
Na terceira situação os benefícios da ação são maiores que seus
custos. Esse grupo com alta possibilidade de ação coletiva é denominado
organizado. Olson afirma ainda que, no limite, o tamanho da organização
determina a possibilidade de ação coletiva. Em grupos muito extensos,
uma vez que o benefício desejado pode ser obtido apenas com a ação
de uma parte de seus membros, e que se ele for alcançado será compartilhado
com todos, eles tendem a considerar sua participação individual
como dispensável e preferem esperar confortavelmente sem se manifestar.
A grande extensão do grupo também dificulta a identificação de quem
participa realmente ou não, além de tornar mais elevados os custos
da ação. Já em grupos reduzidos os custos para a manutenção da organização
é menor, assim como é mais fácil perceber os mais "preguiçosos"
e portanto induzi-los a participar. Posteriormente outro fator foi
apresentado como determinante da ação coletiva: o status da organização
na estrutura social. O prestígio de uma organização frente a sociedade
e os recursos humanos e financeiros que ela dispõe, permitem manter
um maior controle sobre seus integrantes, através de mecanismos
de recompensas e punições que tornam a coordenação mais eficaz.
A teoria da ação coletiva foi muito utilizada para explicar como
as associações empresariais e as próprias empresas conseguem manter
sob controle as reivindicações dos trabalhadores e de seus sindicatos.
Os trabalhadores, por serem extremamente numerosos, tem maior dificuldade
em formular resumidamente seus objetivos básicos que o pequeno número
de diretores da empresa. Estes últimos tem ainda auxiliares-técnicos,
que fornecem informações para demonstrar a impossibilidade do aumento
desejado pelos trabalhadores, e ainda podem recorrer a justiça quanto
à legalidade da greve ou até mesmo contratar outros homens para
substituir os grevistas.
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AÇÃO SOCIAL
A definição mais aceita de ação social é aquela que a defende como
uma ação que é orientada pelas de ações de outros. Isto é, ação
social é todo comportamento cuja origem depende da reação ou da
expectativa de reação de outras partes envolvidas. Essas "outras
partes" podem ser indivíduos ou grupos, próximos ou distantes, conhecidos
ou desconhecidos por quem realiza a ação. A idéia central da ação
social é a existência de um sentido na ação: ela se realiza de uma
parte (agente) para outra. É uma atitude sobre a qual recai ao menos
um desejo de intercâmbio, de relacionamento. Como toda relação social,
é determinada não só pelos resultados para o agente, mas também
pelos efeitos (reais ou esperados) que pode causar ao outro. Uma
divisão clara entre ações que podem e não podem ser consideradas
como sociais é impossível de ser feita. Na verdade, para entendermos
se uma ação é social devemos prestar atenção no contexto em que
ela ocorre. A mesma ação pode ora ser classificada como social,
ora não. Tomemos o ato de escrever como exemplo. Escrever uma carta
certamente é uma ação social, pois ao fazê-lo o agente tem esperança
que a carta vai ser lida por alguém. Sua ação só terá significado
enquanto envolver outra pessoa. No entanto escrever uma poesia,
na medida em que ela envolve apenas a satisfação ou a expressão
das sensações do poeta, não é uma ação social. A reação dos outros
ao seu conteúdo não foi levada em conta para sua construção. Ainda
que a carta se extravie e ninguém a leia, escrevê-la continua sendo
uma ação social porque ao agente continua interessando a reação
do (neste caso inexistente) leitor. Enquanto isso, um poema será
entendido como produto de uma ação social apenas se ao escrevê-lo
o poeta já tinha em mente mostrá-lo a outras pessoas e provocar
com isso alguma manifestação. Portanto dependendo da situação em
que é feita, uma ação pode ser tratada apenas em parte como social.
Max Weber, um dos sociólogos mais estudados, apresentou entre seus
trabalhos uma classificação dos tipos de ação social, de acordo
com os motivos que a geram. São eles: (1) ação tradicional, cuja
realização se deve a um costume ou um hábito enraizado; (2) ação
afetiva ou emocional, motivada por sentimentos do agente pelo seu(s)
interlocutor(es); (3) ação racional com relação a valores, atitudes
que envolvem um planejamento orientado pelos princípios do agente;
(4) ação racional com relação a fins, atitudes cujo planejamento
é orientado pelos resultados que serão alcançados com sua realização.
Deve ficar claro a diferença fundamental entre o primeiro e o segundo
par de tipos: no segundo par o indivíduo consegue visualizar muito
mais claramente os motivos da sua ação que no primeiro, o que em
equivale a dizer que ele tem maior controle sobre elas. O indivíduo
pode escolher como vai agir racionalmente, calculando os custos
e prevendo as conseqüências de suas atitudes. Mas é muito difícil
que ele escolha que tradição ou costume vai seguir, e mais difícil
ainda escolher a quem nos ligaremos emocionalmente. Essa dificuldade
é em virtude da pessoa executora e a pessoa objeto dessas duas ações
geralmente entenderem-se como partes da mesma unidade. Já nas ações
racionais o individualismo é marcante. Segundo esta ótica, podemos
classificar os dois primeiros como ações comunitárias e os dois
últimos como ações associativas. Essa classificação baseia-se em
modelos ideais, cujos exemplos puros raramente podem ser encontrados
na sociedade. Muitas vezes são vários os motivos de uma ação, o
que cria a possibilidade dela ser incluída em mais de um daqueles
tipos. O caso de um professor é bem ilustrativo dessa complexidade:
sua atitude de dar aula pode ser determinada pelo seu desejo receber
o salário (ação com relação a fins), como também pela importância
que ele atribui a educação (ação com relação a valores) ou ainda
pelo prazer que ele sente ao ver seus alunos aprenderem (ação afetiva),
ou ainda porque toda a sua família é composta de professores e ele
sempre viveu no meio educacional (ação tradicional).
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ALIENAÇÃO
Um dos primeiros pensadores sociais a utilizar esse termo foi Rousseau,
para descrever o ato de cada indivíduo quando troca suas liberdades
pessoais por direitos comuns garantidos em lei, submetendo suas
vontades às conveniências e os limites da vida em sociedade, e por
extensão à autoridade do Estado. Nesse sentido, tem um caráter predominantemente
jurídico, sendo sinônimo de abdicar de algo que lhe pertence, seja
por imposição externa ou por decisão espontânea. De acordo com essa
definição, podemos abdicar de bens materiais ou de direitos. Uma
fazenda pode ser alienada (desapropriada) de seu possuidor, para
fins de reforma agrária. Um criminoso encontra-se alienado (preso)
numa penitenciária, pois sua liberdade representa perigo para a
sociedade. Em Sociologia, este termo foi difundido na forma em que
é empregado por Marx em sua crítica ao capitalismo e à sociedade
industrial. Para ele, estes dois fenômenos (que aparecem combinados
em um só) implicam em duas alienações fundamentais, sendo a segunda
uma conseqüência da primeira. Esta seria a expropriação da classe
trabalhadora de seus meios de produção (matéria-prima, ferramentas,
técnicas, etc.) e de seus fins (a mercadoria), quando a demanda
por suas mercadorias ultrapassa os limites de cada um. Neste momento
a produção passa a ser submetida ao ritmo determinado por um supervisor,
que na grande maioria das vezes passa também a ser o fornecedor
de material e o proprietário das máquinas - é o empresário. A organização
da produção, ou como escreve Marx, a divisão técnica do trabalho,
e o fenômeno de especialização em que elas implicam, impedem a percepção
pelo trabalhador de todo o processo de produção, impossibilitando
que o trabalhador se identifique com o seu produto. Em outras palavras,
aqueles dois fenômenos (divisão e especialização) separam o trabalhador
do fruto de seu esforço, uma vez que sua contribuição individual
para o resultado final pode ser irrisória. Um operário cuja atividade
consiste em instalar os faróis dos carros que saem da linha de montagem
não dirá que o carro foi feito por ele. Assim, quando o carro for
vendido, o comprador também não verá nele o trabalho daquele operário,
mas apenas o do conjunto. Esta é a segunda alienação: a divisão
do trabalho separa as pessoas uma das outras, ao impedir que nas
relações de troca (ou compra e venda) elas se comuniquem pelo produto:
o comprador não sabe quem fez aquele bem, o operário não sabe quem
o comprou. Com a sua difusão, a idéia original de alienação de Marx
foi modificada pelos sociólogos que vieram depois dele. Sua aplicação
foi ampliada, e sua origem levada para além do nível do trabalho.
Em suas utilizações mais comuns, a alienação pode ser definida como
a incapacidade de um ou mais indivíduos de perceber os fundamentos
das relações que são estabelecidas entre eles. Não há o reconhecimento,
ou se há é parcial, dos laços de solidariedade que os unem. Esta
deficiência poderia ser causada tanto por imperfeições na socialização
a que cada um é submetido quanto pela crescente complexidade das
sociedades contemporâneas. Com um número cada vez maior de regras,
responsabilidades e oportunidades, o indivíduo não consegue ordená-las
dentro de sua mente, reconhecendo-se como impotente e isolando-se.
De certa forma esta definição é semelhante a de anomia desenvolvida
posteriormente por Durkheim.
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ANOMIA
O vocábulo grego que dá origem ao termo anomia significa "sem normas",
o que permite entendê-la como uma situação de desregramento social,
onde a ação dos indivíduos não mais é pautada por normas claras
e compartilhadas. O conceito de anomia é usado por diversos autores
da Sociologia, nem sempre com as mesmas aplicações. Esta variação
se deve ao fato de que ela não se trata de um fenômeno regular nem
organizado, caracterizado por algo que ele não tem (regras), o que
dificulta o estabelecimento de elementos coerentes para análise.
Durkheim foi o primeiro a tentar precisar este conceito, que apresentou
como a ruptura de laços de solidariedade entre os indivíduos, podendo
ser causado por inúmeros fatores. O principal deles é a individualização:
o indivíduo não mais orienta seus atos através de valores comuns,
mas segundo as próprias intenções. A definição durkheimiana aproxima-se
em sua aplicação à idéia de alienação marxista: guardando algumas
diferenças contextuais, ambas descrevem um quadro de desregulamentação
da conduta individual, de caos social provocado na grande maioria
dos casos por defeitos no processo de socialização. De acordo com
estas proposições, quanto maior a anomia menor a integração entre
os indivíduos. Um exemplo de anomia é o uso de drogas ilegais por
membros da sociedade. Por algum motivo pessoal, eles aceitam sustentar
uma atividade criminosa para satisfazer ao seu interesse exclusivo,
muitas vezes pondo em risco a sua vida e o bem-estar de pessoas
próximas. É uma situação onde o indivíduo perde o quadro de referências
e de valores comuns. Outro exemplo de situação anômica é a utilização
consciente de meios ilícitos para se conseguir um resultado almejado.
Neste caso trata-se de uma opção por formas de agir condenadas pela
sociedade, possivelmente causada pela impossibilidade de sucesso
por outros meios. Cabem aqui os grupos terroristas, as organizações
mafiosas, que se aproveitam de espaços sem autoridade para agirem
segundo seus princípios distorcidos. De acordo com esta definição,
há anomia onde as instituições sociais não conseguem fazer valer
sua força, seja por encontrar outras práticas mais fortes ou por
incompatibilidade com o meio. A idéia de anomia pode portanto, em
alguns casos, encerrar um conteúdo preciso. Mas esta possibilidade
diminui conforme tentamos aplicá-la a sistemas sociais mais complexos.
Quando referida a uma organização menor, a anomia pode ser definida
de maneira clara, uma vez que toda organização é sempre definida
em relação a objetivos. O grau de anomia dessa organização será
determinado conforme a capacidade de seus membros em atingir os
objetivos propostos: quanto menor essa capacidade, maior a anomia.
Mas o mesmo não acontece quando passamos do nível das organizações
para o nível das sociedades. As sociedades não são definidas em
relação a objetivos. Por isso é muito mais difícil neste caso estabelecer
uma conceituação de anomia mais exata que a simples "ausência de
regras".
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AUTORIDADE
As relações de autoridade, como todas as relações de poder, estão
divididas em um lado que expressa sua vontade e outro que se comporta
de acordo com ela. Mas apresentam uma qualidade especial: essa obediência
de um lado ao outro se dá sem confrontos ou resistências, devido
a crença na validade e na importância daquela vontade. Em outras
palavras, acredita-se na legitimidade dessa vontade. A autoridade
é portanto fruto de uma relação social de dominação legítima. A
legitimidade de uma manifestação, seja ela interpretada como uma
sugestão ou uma ordem, faz com ela seja sempre digna de respeito.
Essa característica marcante faz com que a autoridade seja um tipo
de poder bastante estável dentro de uma sociedade, sendo reconhecida
como essencial por todos os seus membros. Desse reconhecimento vem
a desnecessidade da autoridade provar a todo momento a sua importância,
sendo aceita pacificamente. Em conseqüência disso a autoridade se
apresenta com freqüência bastante formalizada, isto é, com normas
claras que definem o seu alcance e a sua intensidade. A dos pais
para os filhos, dos professores para os alunos, dos oficiais para
os soldados seguem normas diferentes e não se misturam. Cada uma
delas é constituída por diferentes definições de direitos e obrigações,
recompensas e punições. Assim, a idéia de autoridade pode ser resumida
como um poder fortemente estabelecido, legítimo e limitado. É poder
porque influencia o comportamento de outros, e forte porque é capaz
de impor-se quando questionada. É legítima porque suas qualidades
são tidas como verdadeiras e dignas de confiança. É limitada porque
estas qualidades que lhe conferem legitimidade só são aceitas em
contextos específicos, de acordo com os papéis envolvidos. Um guia
só será respeitado enquanto não soubermos o caminho, um soldado
só obedecerá ao oficial enquanto estiverem ambos em serviço, e um
fiel acatará a sugestão do padre apenas enquanto esta envolver assuntos
religiosos. Fora de seus limites, a autoridade do guia, do oficial,
do padre ou do pai, desaparece junto com sua legitimidade. Suas
qualidades não mais são vistas como imprescindíveis. A autoridade
é portanto produto de um processo duplo: ao mesmo tempo em que é
obedecida ela deve ser legitimada pelos subordinados. Assim, a manutenção
de uma relação de autoridade baseada na legitimidade do poder depende
em grande parte da sua capacidade de mostrar-se presente e renovar-se.
Depois de acostumarem-se a certo comportamento, as pessoas não mais
precisam ser ordenadas a fazê-lo, e a autoridade pode se tornar
desnecessária. Em conseqüência disso, apesar de não precisar ser
constantemente testada, ela deve dar demonstrações de sua vitalidade
que reafirmem os motivos que a sustentam. As Forças Armadas podem
promover exercícios ou simulações, ou desfiles que demonstrem sua
organização. O professor pode utilizar filmes em suas aulas, ou
levar os alunos ao laboratório. Estas são atitudes que contribuem
para reanimar a crença na validade do poder atribuído àquelas autoridades.
A partir destes argumentos pode-se afirmar ainda que uma autoridade
é tanto mais legítima quanto mais amplamente a fonte de seu poder
for aceita pela sociedade.
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BUROCRACIA
Devido ao elevado grau de complexidade atingido pelas sociedades,
elevou-se também a quantidade de informações e atividades necessárias
para a direção ou mesmo manutenção de uma organização, seja ela
uma escola, uma empresa ou um órgão público qualquer. Foi preciso
então criar um arranjo que pudesse processar e armazenar aquelas
informações, e que, distribuindo tarefas e funções entre diversas
pessoas, ordenasse o seu funcionamento interno. Se antes o patrão
conhecia todos os seus empregados e clientes, o crescimento de sua
empresa impõe a ele obstáculos que é incapaz de superar sozinho.
Não é mais possível para ele controlar o horário de entrada e saída
dos funcionários ao mesmo tempo em que procura o melhor fornecedor
de matéria-prima e desenvolve a nova campanha de publicidade do
seu produto. Para dar conta dessas novas questões é formada uma
equipe de apoio, que trabalhando em conjunto terá condições de administrá-las,
criando os recursos que a liderança precisa para decidir os rumos
da instituição. Em outras palavras estabelece-se um aparelho coordenador
de atividades e informações a serviço dos detentores do poder naquela
organização. A este aparelho damos o nome de burocracia, que nada
mais é que um instrumento para controlar e ordenar uma grande quantidade
de dados em prol de uma finalidade qualquer previamente definida.
Todas as grandes organizações apresentam formas de burocracia: os
bancos, as grandes empresas, e principalmente o Estado. As burocracias
podem seguir diferentes modelos e realizar diferentes funções, mas
sempre aparecerão onde o for grande o volume de informações que
precisam ser consideradas, e onde houver necessidade de (co)ordenar
múltiplas atividades. Certamente a burocracia é uma das formas mais
elaboradas de organização humana. A princípio pode ser entendida
como um sistema, no qual encontramos partes ou sessões interligadas,
cada uma com uma função específica relacionada ao conjunto. Mas
diferente de um sistema qualquer, esta organização fundamenta sua
ordem interna de acordo com critérios técnicos, privilegiando a
eficiência e a qualidade: é o modelo de administração da sociedade
moderna, adotado praticamente em toda sorte de organização, tanto
públicas quanto particulares. Outra de suas principais características
é a utilização de padrões universais para todos as suas ações, internas
ou externas. A admissão de novos membros, a promoção de outros mais
antigos, o tratamento com a população a sua volta, todos estes processos
obedecem a um conjunto de regras definidas segundo métodos racionais
de avaliação, e portanto invariáveis de uma pessoas para a outra.
Não interessa a origem ou a influência do candidato, funcionário
ou cliente, o tratamento dispensado a eles obedecerá critérios homogêneos.
A existência dessas regras é também apontada como um dos principais
problemas das organizações burocráticas. Como muitas pessoas desconhecem
as normas de seu funcionamento, acabam não conseguindo ser satisfatoriamente
atendidos pelos burocratas, e criam muitas vezes dificuldades para
ambos os lados. Desta situação podemos concluir que há um certo
poder nas mãos dos burocratas, uma vez que eles, ao estarem familiarizados
com aqueles procedimentos, podem facilitar ou dificultar o atendimento
a pessoas estranhas a eles de acordo com sua própria vontade. Desta
forma, a exigência da avaliação por critérios homogêneos também
é necessária no interior da própria burocracia, para manter a uniformidade
e a qualidade de seus serviços. Para a admissão de novos membros
esses critérios são na maioria das vezes fundamentados em conhecimentos
anteriores (educação formal e experiência), e para sua manutenção
e promoção em eficiência e produtividade. Estas avaliações internas
são imprescindíveis para evitar que ocorram favorecimentos ou atrasos
dentro da organização, sendo algumas vezes estudados sob uma forma
de controle sobre seus membros.
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