De A a Z

Leis

De Olho!

Voto

Ouvidoria

Participe!

 


 

DICIONÁRIO POLÍTICO
Estes verbetes foram pesquisados por Maurício Assumpção Moya, Bacharel em Ciências Sociais e Mestre em Ciência Política pela Universidade de São Paulo.
Se você tem dúvidas ou não encontrou algum verbete aqui, escreva para
agora@agoranet.org.br

A B C D E F G I L M N O P R S T U V


CAPITALISMO
Em seu sentido mais restrito, o capitalismo corresponde a acumulação de recursos financeiros (dinheiro) e materiais (prédios, máquinas, ferramentas) que têm sua origem e destinação na produção econômica. Essa definição, apesar de excessivamente técnica, é um dos poucos pontos de consenso entre os inúmeros intelectuais que refletiram sobre esse fenômeno ao longo dos últimos 150 anos. São duas as principais correntes de interpretação do capitalismo, divergindo substancialmente quanto a suas origens e conseqüências para a sociedade. A primeira foi elaborada por Marx, para quem o capitalismo é fundamentalmente causado por condições históricas e econômicas. O capitalismo para Marx é um determinado modo de produção de mercadorias (mercadorias são objetos que têm a finalidade de serem trocados e não a de serem usados) que surge especificamente durante a Idade Moderna e que chega ao seu desenvolvimento completo com as implementações tecnológicas da Revolução Industrial. A idéia marxista de modo de produção não se restringe apenas ao âmbito econômico, mas estende-se a toda relação social estabelecida a partir da vinculação da pessoa ao trabalho. Uma característica básica desse modo de produção é que nele os homens encarregados de despender os esforços físicos, que Marx chama de "força de trabalho", não são os mesmos que têm a propriedade das ferramentas e das matérias-primas (posteriormente também das máquinas), denominados "meios de produção". Esta separação proporciona outro aspecto essencial do capitalismo, que é a transformação da "força de trabalho" em uma mercadoria, que portanto pode ser levada ao mercado e trocada livremente (basta lembrar que no modo de produção escravista o objeto da troca é o escravo inteiro, e não só a sua força, enquanto que no feudalismo praticamente não havia trocas econômicas). Assim, a sociedade capitalista estaria dividida entre uma classe que é proprietária dos meios de produção e outra classe cuja única fonte de subsistência é a venda ou troca de sua "força de trabalho". Os argumentos apresentados por Marx para demonstrar a passagem do feudalismo para o capitalismo e a acentuação da divisão do trabalho são elaborados através de uma reconstrução histórica impossível de ser resumida aqui, sendo no momento suficiente apontar que ela passa pela desintegração dos laços entre senhor e servo e pela ampliação das relações comerciais (de troca), estas últimas que permitem uma acumulação inicial de riquezas (chamada por Marx de "acumulação primitiva"). A explicação alternativa foi apresentada por Weber, e enfatiza aspectos culturais que permitiram a expansão do capitalismo. Para ele, o desejo pelo acúmulo de riquezas sempre existiu nas sociedades humanas, como no Império Romano ou durante as grandes navegações, mas até meados do século XVII faltavam condições sociais que justificassem a sua perseguição ininterrupta. Para demonstrar isso ele aponta as amplamente conhecidas condenações feitas pela Igreja Católica às práticas da usura e do lucro pelos comerciantes ao longo do século XV e XVI. Se tais restrições fossem mantidas, a chamada "acumulação primitiva" não teria sido possível. A mudança ocorre com a reforma religiosa promovida por Lutero e principalmente Calvino. Segundo eles, a atividade profissional estaria associada a um dom ou vocação divina, e portanto seria da vontade de Deus que elas fossem exercidas. Assim o trabalho, que antes era visto como um mal necessário, passa a ter uma valorização positiva. Mais que isso, Calvino aponta o trabalho como a única forma de salvação, e a criação de riquezas pelo trabalho como um sinal de predestinação. Esses dogmas religiosos, juntamente com outros menores como a contabilidade diária, formam o fundamento de uma ética, isto é de um conjunto de normas que rege a conduta diária do fiel. Essas normas, ao se encaixarem às exigências administrativas da empresa (valorização do trabalho e busca do lucro), criam as condições necessárias para a expansão da mentalidade (ou do "espírito", como o denomina Weber) capitalista e posteriormente da sociedade industrial. Esta explicação demonstra sua consistência quando observamos o elevado estágio de desenvolvimento econômico das sociedades que abrigaram representantes da Reforma (calvinistas, metodistas, anglicanos...): a Alemanha (berço da Reforma), a Inglaterra (pátria do Anglicanismo), os Estados Unidos (destino de milhares de protestantes expulsos da Irlanda católica e outros tantos imigrantes anglicanos ingleses), e os Países Baixos.
[voltar para o topo]


CARISMA
O termo carisma foi difundido na sociologia por Weber, mas antes já havia sido utilizado por historiadores das religiões. Segundo estes, o carisma é o encanto ou a graça que estão presentes em alguns homens, cuja explicação passa por motivos mágicos ou divinos. Weber identificou o carisma como uma da fonte legítima de poder, isto é, como uma das maneiras de influenciar ou determinar o comportamento de outros sem valer-se da força física. As relações de dominação baseadas no carisma ocorrem sem a resistência dos comandados, justamente por eles acreditarem na fonte do poder do líder. Na maioria das vezes essas relações são fortemente assimétricas (desiguais), onde um grande grupo de seguidores concentra suas atenções em (geralmente) um único chefe "iluminado". As relações carismáticas são freqüentemente encontradas em grupos religiosos, mas também podem surgir em partidos e outras organizações. É bastante comum reunirem-se imensas platéias para ouvir os líderes carismáticos pronunciarem-se, devido a importância de sua orientação para o grupo. Nos exemplos de homens carismáticos é preciso ligá-los a população que o cercava, uma vez que eles podem não parecer carismáticos para nós. Assim o são Jesus Cristo e os profetas para os hebreus, Napoleão para os franceses, Lênin para os bolcheviques russos, John Kennedy para os americanos, Adolf Hitler para os alemães das décadas de 30 e 40. No Brasil encontramos Getúlio Vargas, Antonio Conselheiro e a população de Canudos (BA), Padre Cícero e os cearenses, entre muitos outros. Mas é importante notar: a popularidade é uma conseqüência do carisma, e não uma de suas causas. De uma forma mais simples, o carisma é um conjunto de qualidades especiais de uma pessoa que lhe confere uma preponderância ou um papel de destaque sobre os outros integrantes do grupo. Mas a característica fundamental dessas qualidades é que elas têm um elevado grau de subjetividade, ou seja, não são transmitidas através de explicações nem aprendidas através de exercícios. O carisma aparece quase como um dom, uma qualidade inata. Ele gera uma simpatia profunda, uma ligação quase emocional entre o líder e os seguidores, e raramente pode ser explicado sem que se utilize a idéia de crenças e valores compartilhados. É desta forma muito associado a formação de comunidades, onde predominam a espontaneidade e o consenso (v Comunidade). A importância da observação do carisma nas sociedades deve-se justamente ao seu caráter subjetivo, quase mágico, que confere tanto poder aos seus detentores. Como se pode observar nos exemplos acima, a ascensão de líderes carismáticos está com freqüência associada a períodos de transformação que as sociedades em questão estão atravessando. São momentos em que os valores da população estão se modificando, e esta busca orientação para seus desejos e expectativas em indivíduos com os quais se identifica. Lênin torna-se famoso com a revolução que derruba o já decadente czarismo (monarquia russa), e Hitler vem seguindo o grande crescimento econômico alemão, canalizando seu desejo de expansão. Antonio Conselheiro e Padre Cícero são líderes religiosos que souberam interpretar as aspirações de uma população carente e conduzi-los a ação transformadora. Nesse sentido, a análise de fenômenos carismáticos essencial para se começar a entender o complexo processo de mudança social.
[voltar para o topo]


CIDADANIA
O conceito de cidadania remonta a antigüidade clássica na Grécia, onde eram considerados cidadãos todos aqueles que estivessem em condições de opinar sobre os rumos da sociedade. Entre tais condições estava que ele fosse um homem totalmente livre, isto é, não tivesse a necessidade de trabalhar para sobreviver, uma vez que o envolvimento nos negócios públicos exigiam dedicação integral. Portanto era pequeno o número de cidadãos, que excluíam além dos homens ocupados (comerciantes, artesãos), as mulheres, os escravos e os estrangeiros. Praticamente apenas os proprietários eram livres para ter o direito de decidir sobre o governo. Tanto naquela época como hoje, podemos entender como cidadão o indivíduo detentor de direitos, e por extensão, a cidadania como o conjunto desses direitos. Mas da Grécia clássica para os dias de hoje existem grandes diferenças a respeito de quais são esses direitos e como eles são atribuídos a cada pessoa. A cidadania grega era compreendida apenas por direitos políticos, identificados com a participação nas decisões sobre a coletividade. Já cidadania atual envolve três tipos de direitos: civis, políticos e sociais. O desenvolvimento desses direitos acompanhou a crescente complexidade das relações sociais desde o século XVIII. Essa diversidade de direitos que compõe a cidadania moderna está relacionada com o surgimento da noção de indivíduo e com o estabelecimento do Estado (também chamado de Estado de Direito). A conseqüente separação dos ambientes público e privado é resultado da compreensão da existência de direitos individuais, liberdades anteriores a subordinação do indivíduo ao Estado e válidos para todos sem exceção. Estes são os direitos civis, como a liberdade de expressão, de pensamento, de ir e vir , e principalmente o direito a propriedade. A própria origem do Estado vem da necessidade de se garantir esses direitos individuais e universais, que pode ser entendidos como liberdades limitadas mas garantidas pela lei. Os direitos políticos referem-se exatamente a relação dos indivíduos com o Estado e com o governo: como na Grécia, permitem que se participe das decisões coletivas, e assumem a forma do direito de eleger e de ser eleito. Os critérios que estabelecem quem tem o direito de participar das eleições mudaram ao longo do tempo e de uma sociedade para outra, para hoje em dia ser apenas limitado pela idade. Com o desenvolvimento econômico e social, dá-se um aumento na quantidade de direitos garantidos pelo Estado. A ampliação dos direitos políticos às camadas mais pobres permite que estas passem a cobrar uma "política distributiva" por parte do Estado, que é incorporada à idéia de justiça social. Estas cobranças resultam no estabelecimento dos direitos sociais, como por exemplo os direitos à saúde e à educação, ligados às políticas de bem-estar social promovidas pelos governos de diversos Estados a partir de meados deste século. A cidadania contemporânea é portanto resultado da regulamentação das relações entre os homens, que define até onde cada um é livre para agir sem prejudicar o outro. São estas liberdades limitadas que chamamos de direitos, e que hoje em dia são amparados por garantias legais incluídas na própria Constituição do Estado.
[voltar para o topo]


CIDADE
Existem na história da sociologia duas correntes que se preocuparam em observar a cidade. A primeira delas vem de um ramo da sociologia americana da primeira metade deste século, e entendia a cidade como o exemplo de organização social mais próximo do ideal de estabilidade e ordem que muitos cientistas sociais americanos julgavam ser inerente à sociedade. As cidades médias do interior dos Estados Unidos foram bastante usadas para a aplicação do modelo de sistema desenvolvido naquela disciplina, devido a maior clareza com que era possível identificar em seu interior as redes de interação entre os indivíduos e os diversos grupos a que eles simultaneamente pertenciam, em comparação com as complexas e "desordenadas" metrópoles. A segunda corrente, que será desenvolvida a seguir, vem da sociologia francesa, que principalmente com Lefebvre, observa a cidade a partir de uma perspectiva dialética. Neste caso a cidade é vista como uma obra, como o resultado concreto dos atos de seus habitantes. São as pessoas que moldam a cidade conforme o uso que fazem dela. As cidades gregas da antigüidade eram construídas ao redor da ágora, um amplo pátio utilizado principalmente para às assembléias políticas, mas também para os grandes encontros como o comércio e o teatro. As cidades medievais foram fundadas pelos europeus a partir de entrepostos comerciais, abrigavam os mercados e as festas, inexistentes nos limites do feudo. Sob esse ponto-de-vista, a origem das cidades modernas está intimamente ligada à divisão do trabalho. A visível acentuação da separação do ambiente entre campo e cidade ocorrida a partir da Idade Média corresponde à concentração no campo da produção material básica (agricultura, zoocultura, mineração) e à concentração na cidade das trocas e da produção, por assim dizer, intelectual (educação, artes, decisões de grande alcance). É necessário lembrar aqui que historicamente as indústrias preferiram, em suas fases iniciais, instalar-se próximas às fontes de matéria-prima e recursos naturais, afastando-se das cidades. Sua aproximação só ocorre mais recentemente, quando para aumentar sua produtividade as indústrias diminuíram sua distância das cidades para facilitar o acesso aos grandes mercados consumidores que estas continham. A cidade é apresentada ainda como intermediadora das relações humanas, do seu nível próximo (as interações de um indivíduo para outro e para grupos reduzidos, que se são altamente heterogêneas) para seu nível distante (as outras cidades e o conjunto da sociedade, as instituições e os valores comuns a todos) e vice-versa. Em outras palavras, a sociedade se manifesta para os indivíduos através da estrutura da cidade, quando nesta se concentram os representantes de suas instituições, como policiais (agentes da segurança), professores (agentes da educação) ou políticos (agentes do poder). Ao mesmo tempo esses representantes, enquanto mantiverem alguma coesão e autonomia, podem promover (consciente ou inconscientemente) alterações nestas instituições. A cidade é portanto produto simultâneo da manutenção de valores comuns e da inovação individual, o que a torna o local ideal para a transformação e a mudança social. Esta teoria não apresenta modelos para interpretar a mudança, mas aponta inúmeros casos em que ela só foi possível devido às concentrações características da cidade. É o caso do desenvolvimento tecnológico proporcionado pela reunião de especialistas em núcleos de pesquisa, com grandes impactos nas condições de saúde das pessoas e também na produção econômica. Outro exemplo é a própria Revolução Francesa, causada pela convivência simultânea em Paris do imperador e de um grande número de intelectuais e burgueses contrários à monarquia, que se associam à população insatisfeita e tomam a Bastilha, começando o processo de derrubada do regime absolutista e que tem as conseqüências descritas nos livros de História Geral. A Proclamação da República no Brasil também foi propiciada pela coexistência no Rio de Janeiro da própria sede da Monarquia e de forças contrárias a ela (exército e proprietários, bem como intelectuais).
[voltar para o topo]


CLASSE
Este termo foi amplamente utilizado pela sociologia marxista para definir os dois grandes grupos em que a sociedade se divide a partir do desenvolvimento do capitalismo: os operários e os empresários, ou como os apresenta Marx, os trabalhadores e os capitalistas propriamente ditos. Implica portanto numa classificação segundo a participação na produção econômica, onde se percebe a existência de uma categoria de indivíduos que se mantêm pela propriedade dos meios de produção (empresários) e de uma outra onde os indivíduos que sobrevivem através da venda de "força de trabalho" (operários ou proletários). As classes são portanto provocadas pela divisão do trabalho. A noção de classe assume uma grande importância na sociologia marxista quando é colocada como uma referência para a ação conjunta de seus membros. A partir do momento em que os trabalhadores reconhecem que se encontram nas mesmas condições de expropriados frente a produção, eles devem se unir e agir coordenadamente para mudar esta situação. Este fenômeno de reconhecimento de posições e interesses comuns Marx chamou de "consciência". Ao adquirir "consciência" da forma como se organiza a produção, onde a despeito de ser mais numerosa ela é relegada a um papel de submissão à classe capitalista (dos proprietários), a classe trabalhadora se une para empreender as transformações necessárias em prol da recuperação de sua autonomia. Na teoria marxista as classes tem portanto participação fundamental na mudança social. A crítica feita a essa definição é por ela ser uma forma de estratificação muito restrita, que não abarca todas as atividades produtivas como se propõe a fazer. Alguns teóricos levantaram a idéia, logo rapidamente difundida, da existência de uma classe intermediária, composta por profissões "liberais" (médicos, advogados, professores) nas quais a propriedade dos meios de produção e o emprego de força de trabalho (ainda) estão na mesma pessoa. Esta teoria foi contra-atacada pelos seguidores do marxismo com os argumentos que a concentração do atendimento à saúde em hospitais, da assistência legal nos escritórios, da educação nas escolas, tende da mesma forma a retirar destes profissionais suas ferramentas de trabalho. Na verdade estas argumentações são complementares, se entendermos a classificação de Marx como dois extremos (ideais) entre os quais há uma infinidade de graduações. É dessa tendência que originou-se a vulgar divisão da sociedade em classe alta, média e baixa, e destas em inúmeras subdivisões. No sentido em que é utilizada mais freqüentemente, a idéia de classe tem tanto sua divisão original quanto a sua homogeneidade interna abandonadas. Apenas a referência ao ambiente econômico foi mantida. Explicando tratar-se de um reflexo da organização econômica na estrutura social, e incorporando a diversidade que lhe é inerente, Weber tentou definir sociologicamente a classe como "mesma situação frente ao mercado". Estar na mesma classe significa ter as mesmas posses e as mesmas possibilidades de rendimento, ou em outras palavras, ter o mesmo poder aquisitivo e a mesma situação financeira. O reconhecimento de pertencer a mesma classe pode ou não levar à ação coletiva, diferente do que defendia Marx. É importante destacar o espaço deixado por esta definição para a mobilidade social.
[voltar para o topo]


COERÇÃO SOCIAL
A idéia de coerção social está na origem da Sociologia. Foi desenvolvida por Durkheim em seus primeiros trabalhos, na virada para este século, justamente na tentativa de demonstrar a existência de fenômenos especiais que influenciam alguns acontecimentos e atitudes individuais, e que escapam a uma explicação puramente psicológica. Segundo Durkheim, quando o homem vive em sociedade, boa parte de suas ações não são resultado exclusivo de decisões isoladas, mas também de princípios exteriores a sua própria vontade. Esses princípios são os valores e os comportamentos que são convenientes para sociedade em questão, e que ela de alguma forma tenta induzir aos seus integrantes. É essa "pressão" que a sociedade exerce sobre seus membros para adequar-lhes a conduta que recebeu o nome de coerção social. A coerção social pode manifestar-se de várias maneiras, anteriores ou posteriores ao ato individual, e todas elas são refletidas nos comportamentos das pessoas envolvidas. Uma das mais importantes formas de coerção é anterior a atitude, e coincide com a socialização: ao ser educado, o indivíduo assimila princípios que já existiam antes dele, e que de uma forma ou de outra limitam-lhe o leque de alternativas para ação. Por exemplo, no convívio com outras pessoas, o indivíduo adapta o desejo natural de encontrar um(a) companheiro(a) e procriar, transformando-o em uma busca pelo casamento e por constituir uma família. A própria observação de sua família, de vizinhos e outros conhecidos que estão casados o induz a comportar-se da mesma maneira. Se uma pessoa começa a demorar para conseguir um parceiro(a), outro tipo de coerção pode ocorrer, uma vez que sua família e seus conhecidos poderão cobrá-lo direta ou indiretamente, seja através de perguntas sobre namoros, através de zombarias ou até do questionamento da sua sexualidade. Outro exemplo de coerção social é importância com que o exame vestibular é visto na sociedade: apesar do ensino básico ser em teoria suficiente para tornar culto um indivíduo, inúmeras pessoas acreditam na necessidade de um curso superior para atingir um bom padrão de vida, e gastam grandes quantias em escolas e livros para serem aprovados no exame. A valorização do ensino superior induz as pessoas a aprofundarem-se nos estudos, e não raramente impede que futuros jogadores de futebol, bombeiros, pintores ou desenhistas desenvolvam suas qualidades, que se escondem atrás de profissões que a princípio não desejavam. Neste caso, é a coerção social que mantém o indivíduo estudando, seja ela manifestada através dos pais, amigos ou professores. Para Durkheim, a coerção social é a qualidade que permite identificar os fenômenos dignos de serem observados pela sociologia. Em outras palavras, é a presença de coerção que faz de um ato comum um objeto de estudos. Esses fenômenos socialmente coercitivos foram chamados de "fatos sociais", e constituem na primeira tentativa de delimitar o campo de estudos da sociologia. Tanto o casamento quanto o vestibular são "fatos sociais", pois existem antes de cada indivíduo e continuarão a existir depois deles, e principalmente apresentam a característica de induzir as pessoas a se conformarem a eles, transferindo a elas responsabilidades e obrigações, seja através de uma educação anterior (socialização) ou castigos e punições posteriores (risadas, multas, perda de prestígio). O conceito de coerção social foi criado a partir do pressuposto (questionado por diversos sociólogos) de que os grupos humanos tendem ao equilíbrio e à ordem, e que portanto desenvolvem mecanismos para coibir atitudes indesejáveis que sejam sintomas de anomia e que podem comprometer sua ordem interna, como o crime e o suicídio.
[voltar para o topo]


COMUNIDADE
A primeira apresentação sociológica do conceito de comunidade foi realizada por Tönnies, que a definia, a partir de uma perspectiva dialética, em oposição a sociedade. A base de sua argumentação é a contradição existente em cada indivíduo, que busca identificar-se com as pessoas ao seu redor através da adoção de pontos de referência comuns ao mesmo tempo em que procura estabelecer uma personalidade própria através de sua diferenciação. Assim, a comunidade seria o local da identidade coletiva, enquanto que a sociedade seria o local da personalidade individual. Tal proposição poderia ser colocada, de forma bastante reduzida, através do seguinte jogo de palavras: numa comunidade os indivíduos estão unidos apesar de tudo aquilo que os separa; numa sociedade eles estão separados a despeito de tudo aquilo que os une. Ainda segundo essa teoria, comunidade e sociedade seriam formas de associação que não se encontrariam isoladas na natureza: todo tipo de organização social teria aspectos de ambas as formas. Sua separação só seria possível ao nível da ação individual. A partir daí Tönnies estabelece uma série de manifestações típicas de cada estado de associação: na comunidade prevaleceria a cooperação, na sociedade a competição; na comunidade predominaria o sentimento, na sociedade a razão; na comunidade o espaço seria íntimo, na sociedade ele seria público; na comunidade as ações seriam espontâneas, na sociedade elas seriam calculadas. Como muitos outros conceitos ao terem seu uso amplamente difundido, o conceito de comunidade sofreu alterações. De maneira geral ele foi despojado de sua perspectiva dialética, mas manteve a idéia de identidade compartilhada. A comunidade pode então ser entendida como um grupo de pessoas ligadas muito intimamente por valores e comportamentos comuns, de tal forma que se veriam como parte de um corpo único e relativamente homogêneo. Dito de outra forma, a comunidade seria constituída por homens que apresentam uma solidariedade e uma união muito fortes, que não são resultantes de acordos formalizados visando fins determinados, mas sim por uma identificação quase totalmente emocional com o conjunto. Seus exemplos mais simples seriam a família e as organizações religiosas. É possível ainda qualificar a comunidade pelo tipo de relação social predominante em seu interior. Seriam comunidades os grupos que apresentassem na sua maior parte relações do tipo afetiva e tradicional. Em contrapartida seriam sociedades os grupos em que prevalecessem relações racionais, com referência a fins ou a valores. Mas na prática utiliza-se o conceito de sociedade para todas as formas de organização humana que apresente um núcleo estruturado de normas de conduta, independentemente se elas são absorvidas pelos seus integrantes de maneira emocional, tradicional ou racional. A comunidade seria segundo esse ponto-de-vista apenas um dos aspectos da sociedade.
[voltar para o topo]


CONFLITOS

Contrariamente ao que pensavam os primeiros sociólogos, principalmente os que desenvolveram a aplicação dos conceitos de função e sistema nesta ciência, a sociedade não se apresenta sempre como um conjunto harmônico de partes interdependentes. Muitas vezes seu equilíbrio interno é instável, e suas instituições levam a comportamentos que não se combinam coerentemente. É devido a percepção da existência de constantes conflitos, tanto internos quanto externos, que as comparações entre a sociedade e os organismos vivos e entre a sociedade e os outros tipos inferiores de organização humana tão utilizadas nos primórdios da Sociologia foram abandonadas. Os conflitos sociais ocorrem por diversos motivos. Podem ser causados por divergências quanto a idéias ou valores, como as perseguições religiosas aos protestantes na França do século XVIII. Podem também ter origem nas disputas pelo acesso a bens ou a direitos, servindo de exemplo as manifestações feministas por igualdade de direitos (principalmente ao voto) que aconteceram nos Estados Unidos no início do século. Ou ainda por ambos os fatores, como nos recentes casos das disputas territoriais e religiosas na ex-Iugoslávia e entre Líbano e Israel. Passando a outra linha de argumentação, os conflitos podem se desenrolar respeitando algumas regras, ou então ir contra elas, procurando redefini-las. O exemplo mais simples do primeiro caso é o confronto entre partidos dentro de uma democracia, através de eleições e de acordos. Há conflitos, mas estes restringem-se a certos limites. No segundo caso podemos citar as invasões de fazendas por pessoas "sem-terra", tentando pressionar o governo a elaborar ou alterar leis que facilitem a reforma agrária. Conflitos sob as regras e conflitos sobre as regras são dois casos extremos, entre os quais existem uma infinidade de combinações - inclusive os dois acima citados. Assim, os conflitos podem assumir formas mais pacíficas ou mais violentas, segundo sua natureza e seus objetivos. Os conflitos podem ainda ser organizados ou fragmentados. Todos os exemplos acima representam conflitos organizados, pois são resultado da ação coordenada de diversas pessoas. Já uma situação de conflito fragmentada é muito mais rara, e muitas vezes pressupõe um enfraquecimento nos laços de solidariedade entre os indivíduos. Um bom exemplo é o racismo na sociedade norte-americana: não há uma associação de brancos contra negros ou contra hispânicos e vice-versa. No entanto são comuns os casos de atritos entre integrantes de cada um desses grupos, sem que haja ligação direta entre os casos. Uma maneira de interpretar os conflitos é a de considerar o seu resultado para as parte envolvidas. Conflitos de soma zero são aqueles em que o benefício de um dos lados corresponde exatamente ao prejuízo do outro, e são exemplificados pelas disputas eleitorais: o número de cargos perdidos por um partido é igual ao número de cargos ganhos pelo(s) outro(s). Existem os conflitos de soma negativa, onde os ganhos do lado vencedor são inferiores às perdas do lado derrotado. As guerras geralmente pertencem a esta categoria: a aniquilação dos inimigos e a destruição de suas defesas nem sempre são acompanhadas na mesma proporção pelo fortalecimento dos vencedores. Há ainda os conflitos de soma positiva, onde os benefícios do vencedor são maiores que os prejuízos dos perdedores, ou onde todos os competidores saem ganhando. Um bom exemplo é a exigência por aumentos salariais: quando estes são concedidos, muitas vezes levam a um aumento da produção que supera as despesas iniciais. A observação dos conflitos sociais é particularmente importante para a Sociologia, uma vez que são momentos de incerteza essenciais para a mudança social. Em outras palavras, engendrando novos valores, novos direitos, novas leis ou novas instituições, os conflitos contribuem para a transformação das sociedades.
[voltar para o topo]

CONTROLE SOCIAL
A idéia de controle social foi apresentada na sociologia americana da década de 20 deste século, associada a estudos sobre o crime e outros comportamentos desviantes, isto é, atitudes socialmente indesejáveis. Seus autores defendiam a importância de instituições sociais que possibilitem tolerar quando não integrar indivíduos desviantes. Pressupunham portanto a existência de padrões de comportamentos que devem ser seguidos, e consequentemente de mecanismos de regulação que maximizem a possibilidade desses comportamentos. De uma forma mais detalhada, controle social é o conjunto de recursos materiais e simbólicos de uma sociedade para garantir que a conduta de seus integrantes respeite as regras e os princípios estabelecidos previamente. Esses recursos poderiam ser externos, na forma de recompensas e punições, ou internos, como a educação moral ou a socialização propriamente dita. Nesse ponto é preciso lembrar que o controle social se trata de uma reinterpretação da idéia durkheimiana de coerção social. O controle social é uma idéia pretensiosa, que leva ao extremo o mesmo questionável pressuposto da tendência da sociedade para a ordem e para o equilíbrio, e sua intenção em adaptar seus integrantes. Como na coerção social, deve-se entender que a sociedade dispõe de alguns instrumentos para estimular e limitar o comportamento de seus membros, de acordo com os padrões que lhe são desejáveis. Mas deve-se reconhecer que esses instrumentos não têm alcance indefinido nem intensidade constante, e que não podem agir sobre todos os aspectos da vida de cada indivíduo, sob o óbvio risco de transformá-lo em um robô sem vontade própria e comprometer o desenvolvimento e a inovação nas relações sociais. No entanto essa idéia foi muito aplicada em organizações humanas de menor escala, como empresas, igrejas e escolas, onde os custos e os benefícios de mecanismos de controle podem ser mais precisamente aferidos, e seus efeitos positivos e negativos melhor observados. Na verdade, o controle é melhor desenvolvido nessas organizações porque elas têm objetivos explícitos e definitivos, que servem de orientação para tal controle. Já uma sociedade não é assim tão clara quanto a(s) sua(s) finalidades, se é que as tem. Assim torna-se impossível o estabelecimento de mecanismos que atuem uniformemente nos grupos heterogêneos que compõe uma sociedade. Mas nem por isso podemos deixar de assinalar alguns resultados de estudos de controle social para grupos sociais reduzidos. Realizados principalmente em cidades médias, esses estudos demonstraram a maior propensão a comportamentos desviantes naqueles indivíduos que não exerceram atividades coletivas na sua educação (esportes, excursões, acampamentos), que não freqüentavam missas e cujos pais não trabalhavam ou trabalhavam demais. De fato estes são fatores que indicam a possibilidade de desvios, mas não têm sua origem plenamente identificada, sendo apenas associados a falhas na socialização. Desta forma os sociólogos limitavam-se a propor melhores formas de integração, bem como algumas maneiras de acompanhar a (re)adaptação individual a sociedade. São exemplos concretos de mecanismos de controle social os oficiais responsáveis pela liberdade condicional de criminosos, as associações de alcoólatras anônimos, os "vigilantes do peso", e todas as outras tentativas de adequar comportamentos as normas socialmente valorizadas. Desta forma, só se deve utilizar a expressão controle social com muita prudência. Se quisermos dizer que a sociedade ou os indivíduos procuram orientar as atividades de outros, só podemos fazê-lo se conhecermos seus objetivos com essa orientação. Mas estaremos considerando assim apenas a dimensão intencional (ou estratégica ou racional) da ação social, que pode ainda ter outra natureza (tradicional e sentimental).


CRIME
O estudo do crime como um fenômeno com causas e significados específicos para a sociedade também faz parte dos primórdios da Sociologia como ciência autônoma. Na passagem do século XIX para o século XX Durkheim já levantava algumas questões fundamentais a respeito da relação entre crime e sociedade. A primeira delas refere-se ao sentido do estabelecimento das atitudes criminosas: não reprovamos uma atitude por ela ser criminosa, mas sim ela é criminosa porque a reprovamos. Em outras palavras, a reprovação ou condenação de um ato é anterior a sua classificação como criminosa, ou seja, o crime é instituído pela convivência social, sendo portanto variável de uma sociedade para outra. Dessa idéia provem a segunda proposição fundamental, segundo a qual todo crime exige normas legais expressas. Isto equivale a dizer que só são consideradas criminosas as atitudes assim relacionadas nas leis daquela sociedade: só há crime onde há lei. Assim podemos encontrar atitudes que embora sejam indesejáveis e mesmo violentas, não são consideradas como crime, como falar "palavrões", não carregar documentos ou dirigir um carro pela contramão. Apesar de não serem criminosas, estas atitudes podem da mesma maneira estar sujeitas a reprovações explícitas por parte da sociedade. A respeito dessas reprovações Durkheim aponta que elas têm a finalidade de agir mais sobre a parte disciplinada da população que exatamente sobre o criminoso. Ao condenar determinados atos que contrariam seus princípios, a sociedade reafirma a importância destes para a convivência harmoniosa. Em outras palavras, a condenação de um crime reforça a solidariedade e as convicções existentes entre as pessoas. Durkheim apresenta ainda dois tipos de sanções (decisões) sociais sobre o crime, uma para cada tipo de solidariedade proporcionada pela divisão do trabalho. Quando o crime prejudica a solidariedade "mecânica" (entre pessoas que exercem as mesmas atividades) as sanções predominantes são punitivas, isto é, procuram castigar o criminoso, tanto para que ele não repita seus atos quanto para que este sirva de exemplo para os outros a sua volta. Já se o crime afetar a solidariedade "orgânica" (entre pessoas com atividades diferentes mas interligadas), as sanções serão predominantemente restitutivas, ou seja, com o objetivo de reestabelecer a ordem que foi rompida pelo criminoso. Na realidade os dois tipos de sanções estão presentes nas condenações, variando apenas a ênfase em cada uma delas. Em casos de assassinato, pune-se o assassino, mas a família ainda pode processar o Estado e tentar receber uma indenização, que se não restitui a vida do parente morto, procura reestabelecer alguma ordem e segurança, principalmente se o assassinado era o responsável pela fonte de renda da família. Já em casos de adultérios que resultam em divórcios não-amigáveis, raramente há o desejo de se punir o adúltero, mas busca-se antes disso um acordo que permita a ambos reordenarem suas rotinas e continuarem as suas vidas, agora separados. Há divergências sobre as causas que levam à prática de um crime. Alguns autores sustentam que o criminoso não é totalmente responsável pelas suas atitudes. Na medida em que é impossível submeter todas as pessoas ao mesmo processo de socialização, algumas apresentam mais solidariedade que outras, estando estas últimas mais propensas a atitudes criminosas. Neste caso o crime é considerado quase como uma doença, um distúrbio na relação entre indivíduo e sociedade, que pode ter origem tanto em um quanto em outro, e os casos exemplares são os de criminosos viciados (em álcool, drogas, sexo, fliperama) e criminosos passionais. Esta vertente dá alguma ênfase a aspectos psicológicos do criminoso. Já outros autores argumentam que o criminoso assimila os valores (é socializado) tão bem quanto qualquer pessoa, mas devido a escassez de recursos disponíveis ele se utiliza de meios ilegais para atingir seu objetivo. É o caso de ladrões e seqüestradores que nada mais querem além de riqueza e conforto para seus familiares, ou de funcionários corruptos que só pensam nos próprios benefícios e privilegiam um cliente em detrimento de outro.

[voltar para o topo]