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DICIONÁRIO
POLÍTICO
Estes verbetes foram pesquisados por Maurício Assumpção
Moya, Bacharel em Ciências Sociais e Mestre em Ciência
Política pela Universidade de São Paulo.
Se você tem dúvidas ou não encontrou algum verbete
aqui, escreva para
agora@agoranet.org.br
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DEMOCRACIA
O termo democracia já está altamente disseminado na linguagem do
dia-a-dia, sendo utilizado nos mais variados contextos, e por isso
mesmo assumindo conteúdos nem sempre corretos. Devemos falar de
democracia apenas quando nos referirmos ao ambiente político da
sociedade, pois é nesse ambiente que ele foi criado e desenvolvido,
antes de cair nas graças de jornalistas, professores e todo tipo
de profissional razoavelmente bem informado. Uma das primeiras definições
de democracia de que se têm notícia foi feita por Aristóteles, ao
estabelecer as três possíveis formas de governo. Democracia seria
o governo de todos os cidadãos, ou seja de todos aqueles que têm
direitos, em contrapartida à monarquia, que é o governo de um só,
e à oligarquia, quando apenas alguns cidadãos estão no governo.
Posteriormente a democracia vai ser apresentada por Platão na sua
"República" como a "menos boa das formas boas de governo, e a menos
má das formas más", porque nela os poderes encontram-se pulverizados.
Além disso, só seria alcançada depois de disputas violentas dentro
da mesma população, freqüentemente degenerando em uma "tirania da
maioria", isto é, a repressão sobre as opiniões das minorias, "quando
os pobres, após haverem conquistado a vitória, matam alguns adversários,
mandam outros para o exílio e dividem entre eles, em condições paritárias,
o governo e os cargos públicos". É preciso lembrar que estas afirmações
foram feitas a partir da observação da instauração das democracias
diretas nas antigas cidades gregas. A idéia de democracia ficou
muito tempo esquecida, até ser retomada pelos inventores do federalismo
norte-americano, no século XVIII. Combinando a divisão dos poderes
do Estado proposta por Montesquieu (Executivo, Legislativo e Judiciário)
e a noção de "soberania popular" da Idade Média, segundo a qual
"todo poder emana do povo", eles inventaram uma forma de governo
que também chamaram de república (res publica = coisa pública).
Nessa república os cargos de governo seriam preenchidos, segundo
critérios proporcionais e majoritários, por alguns homens, escolhidos
através de eleições, das quais participariam todos os cidadãos.
Por prever a participação da população na escolha dos governantes
(e não governar ela mesma) esta forma também foi chamada de democracia
representativa, e é nesta forma que é adotada hoje na grande maioria
dos países do mundo. Os federalistas propuseram ainda alguns mecanismos
de "freios e contrapesos" entre os três poderes, que impediriam
tanto a supremacia de um deles quanto a temida "tirania da maioria".
Mais recentemente, ao observarem as grandes diferenças existentes
entre as democracias adotadas em diversos países, como os critérios
eleitorais, a atribuição de direitos políticos e os limites para
a atuação dos governantes, alguns pensadores políticos tentaram
chegar a uma definição mínima de democracia que pudesse ser aplicado
a todas as suas formas. Chegaram à idéia de um conjunto de regras
para a escolha de quem está autorizado a tomar decisões em nome
de todos, e com quais procedimentos elas podem ser tomadas. Assim,
estabelecendo cada país as suas regras, terão cada um o seu próprio
tipo de democracia. Mas fazem uma ressalva: só pode ser considerado
democrático aquele governo onde os homens que são chamados a votar
e decidir tenham seus direitos e liberdades garantidas constitucionalmente.
Em outras palavras, só haverá governo democrático onde houver Estado
liberal, onde sejam aceitos e mantidos os limites invioláveis das
liberdades individuais, principalmente os direitos civis e os direitos
políticos. Assim a liberdade de expressão (bem como as outras liberdades),
antes de ser uma característica da democracia, é uma condição básica
para a existência desta. A democracia se consolida depois de consolidadas
as liberdades, compondo-se de regras que organizarão a influência
dessas liberdades na escolha e na condução do governo de uma população.
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DESENVOLVIMENTO
Quando tratamos da questão do desenvolvimento de uma sociedade,
é muito comum considerá-lo como resultado de um progresso contínuo,
como uma acumulação de inovações benéficas. A sociedades humanas,
ao desenvolverem-se, estariam sempre melhorando, suas instituições
estariam cada vez mais completas. Esta idéia é um reflexo da teoria
evolucionista de Darwin, aplicada agora a grupos sociais e não mais
a espécies. Eles seguiriam portanto um desenvolvimento linear sempre
para frente, nunca retrocedendo. Por esse caráter de constante aprimoramento,
de se tornar cada vez melhor, esta concepção de desenvolvimento
pode ser chamada de positivista, ou simplesmente positiva. A partir
dessa perspectiva linear e positiva, alguns intelectuais identificaram
diferenças no estágio de desenvolvimento de uma nação a outra. Isto
levou-os a formular a bastante conhecida classificação de países
"desenvolvidos" e países "subdesenvolvidos" (expressão depois substituída
por "em desenvolvimento"). Este tipo de definição apresenta um problema:
quais são os critérios que permitem avaliar se uma sociedade é mais
desenvolvida que outra? No momento em que essa teoria foi formulada,
em meados deste século, as sociedades passavam por grandes transformações
econômicas, e essa classificação foi obtida partindo da análise
de dados econômicos aliados a observações sociais: produto interno
bruto, população economicamente ativa, quantidade de pessoas em
cada um dos setores da produção (primário - agricultura; secundário
- indústria; terciário - serviços), taxa de natalidade e de mortalidade,
índice de alfabetização... Na medida em que as sociedades cresciam,
essa teoria deve de ser revista. A partir de um certo momento foi
possível localizar que nas sociedades havia partes mais aprimoradas
que outras, ao que seguiu-se a observação de que a mesma sociedade
pode ter alguns setores mais desenvolvidos e alguns setores menos
desenvolvidos que a outra a qual está sendo comparada. Assim, o
sistema econômico (indústrias, comércio, relações de trabalho) da
Alemanha é mais desenvolvido que o do Irã, mas o sistema religioso
(sacerdotes, símbolos, restrições sagradas) do Irã pode ser considerado
mais desenvolvido que o da Alemanha. O reconhecimento da convivência
na mesma sociedade de estágios diferentes de desenvolvimento é um
resultado da sua assimilação da noção de processo, e leva a duas
novas conclusões: para fins classificatórios deve-se considerar
simultaneamente todas as partes (política, educação, família) de
uma sociedade, e não apenas a Economia; surge ainda possibilidade
de conflitos dentro daquela sociedade, proporcionados pelo descompasso
entre suas partes. Por exemplo, por mais que as fábricas iranianas
precisem de mão-de-obra, as mulheres não serão incorporadas ao mercado
de trabalho, por restrições religiosas mais fortes que as necessidades
econômicas. Entendendo-se o desenvolvimento como um processo fragmentado,
auto-estimulado e ininterrupto, é aceita a possibilidade de recuos,
de piora nas relações sociais. Por exemplo, ainda que a economia
esteja crescendo, uma diminuição nos investimentos em educação e
em pesquisa pode, num curto período de tempo, reduzir a qualidade
do trabalhador e das máquinas, prejudicando a produção e piorando
as próprias condições de vida da população.
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DIALÉTICA
A noção de dialética nas ciências humanas modernas foi introduzida
por Kant e posteriormente difundida por Hegel e sobretudo Marx.
Trata-se de um instrumento analítico, isto é, de uma linha de raciocínio,
que desenvolve-se a partir do estabelecimento de um paradoxo. Paradoxo
é uma situação contraditória, onde a busca de um determinado objetivo
muda o próprio ambiente em que este se encontra, provocando efeitos
colaterais que muitas vezes impedem o seu alcance. Desta forma,
a dialética implica na idéia de um processo contínuo de realimentação
entre as partes envolvidas, e portanto de constante mutação. A realimentação,
a reprodução de uma relação dialética implica simultaneamente numa
relação de complementação e de oposição. Se podemos considerar como
dialética uma determinada ordem de coisas é porque esta se mantém
tanto através da interdependência quanto através do confronto entre
suas partes. Nesse sentido a escravidão pode ser entendida como
uma situação dialética, na medida em que o senhor e o escravo, ao
mesmo tempo em que são adversários, só podem existir por referência
um ao outro. É uma relação de confronto e cooperação, que gera condições
para a sua manutenção enquanto seus resultados forem positivos para
o conjunto da sociedade. Outro exemplo de situação dialética é a
relação sociedade-criminoso. Para a sociedade, a ocorrência de crimes
tem efeitos tanto negativos quanto positivos. Poupando uma explicação
óbvia dos efeitos negativos, a explicação para a existência de efeitos
positivos reside no fato que é através da punição aos atos criminosos
que a sociedade mantém sua ordem interna e afirma sua força sobre
os indivíduos. É através dos crimes condenados pelas leis que se
reconhece os valores de uma sociedade. De maneira mais simples,
a dialética é uma qualidade de sistemas de interação onde o comportamento
dos homens levam a conseqüências imprevistas e muitas vezes indesejáveis.
Exemplo: ao ouvirem um boato que o banco onde mantêm suas contas
está para falir, milhares de pessoas vão simultaneamente às agências
e realizam grandes saques, o que pode realmente acabar provocando
a falência do banco. As críticas à noção de dialética advém do fato
dela não ser plenamente observável de forma empírica (factual).
É sim uma alternativa teórica escolhida antes da apreciação dos
fatos. Devido a sua tendência ao estabelecimento de oposições e
contradições, ela normalmente reduz o universo de análise a dicotomias
(dois termos): senhor x escravo, cooperação x competição, trabalho
x capital, comunidade x sociedade. Enfatiza desta maneira os conflitos
e não a solidariedade. Com a classificação aos pares, acaba perdendo
a possibilidade de explicar o pluralismo e a diversidade. Acusam
ainda a perspectiva dialética de carregar uma certa ideologia (orientação
por valores que não são compartilhados por todos, mas apenas por
alguns), na medida em que os pólos são estabelecidos arbitrariamente,
e podem ser utilizados para justificar determinada atitude pela
sua oposição a outras, e não pelas sua próprias qualidades. De qualquer
forma não podemos deixar de assinalar que se trata de um eficiente
método de raciocínio, de aplicação bastante ampla. Mas certamente
apresenta maiores dificuldades para explicar situações de equilíbrio
que as conflituosas.
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DIVISÃO DO TRABALHO
A divisão do trabalho é um dos aspectos menos discutíveis das sociedades
humanas, podendo ser encontrada mesmo em sociedades de outros animais,
como as formigas e as abelhas. A partir do momento em que cada homem
(ou animal) não tem mais condições de sozinho garantir a sua sobrevivência,
é preciso que eles se organizem e estabeleçam uma distribuição de
atividades que permita a produção dos bens necessários para a sua
própria manutenção. Entre as abelhas existem algumas que são responsáveis
pelo recolhimento de pólen (operárias) e outras responsáveis pela
reprodução (zangões e abelha-rainha). Nas sociedades humanas há
por exemplo, entre os índios, aqueles que são responsáveis pela
caça e pesca (geralmente homens) e os que cuidam da fabricação de
utensílios (na maioria das vezes as mulheres), para não falar do
responsável pela saúde da tribo (o pajé). Nas sociedades contemporâneas
a divisão do trabalho é gritante: há os que cuidam da segurança
(policiais), os responsáveis pela produção (empresários e trabalhadores),
aqueles ocupados com a educação (professores), para não falar em
sacerdotes, juízes, médicos... Segundo Durkheim, a divisão do trabalho
gera duas formas de solidariedade. A primeira é mais simples e se
dá pela igualdade: os indivíduos que executam as mesmas tarefas
reconhecem que têm pelo menos parte da personalidade em comum, e
se unem em torno dela. O segundo tipo de solidariedade ocorre pela
diferenciação das atividades entre os membros do grupo: para que
elas promovam o bem-estar coletivo, é preciso que sejam feitas de
forma complementar por cada homem, isto é, elas precisam estar interligadas.
A diferença básica entre o primeiro e o segundo tipo de solidariedade,
que foram respectivamente chamadas (de forma questionável) por Durkheim
de "mecânica" e "orgânica", consiste que na primeira a solidariedade
é causada pela identificação entre elementos iguais, enquanto que
na segunda ela é proporcionada pela coordenação de elementos diferentes.
Vista deste ângulo, a divisão do trabalho aparece como benéfica
para a sociedade, uma vez que une os homens através de suas atividades.
Mas na verdade ela também pode ser prejudicial. O próprio Durkheim
demonstra que, se o processo de diferenciação de atividades que
dá origem à solidariedade "orgânica" for muito acentuado, a coordenação
entre elas não poderá ser feita de maneira eficaz. Em outras palavras,
a infinidade de ocupações distribuídas entre os homens impedirá
que eles percebam a complementariedade entre elas. Esta diferenciação,
que muitas vezes vem acompanhada de um crescente individualismo,
é a base para a argumentação de Durkheim sobre a anomia e o suicídio,
problemas que ele supõe aumentar com o advento da sociedade industrial.
Em sua crítica ao capitalismo, feita cinqüenta anos antes de Durkheim,
Marx apresenta a divisão do trabalho como essencialmente má, destruidora
das relações entre os homens e portanto promotora da alienação.
Para Marx ocorrem duas divisões fundamentais: a separação entre
meios de produção e força de trabalho; e a subdivisão do mesmo trabalho
em diversas etapas (principalmente na linha de montagem). Esta última,
correspondente à compartimentação de uma mesma atividade em várias
outras, ou seja, à especialização, impede que o homem saiba qual
o resultado do seu esforço, além do salário. Inviabiliza assim que
os homens se relacionem através do produto de seus respectivos trabalhos.
As diferenças entre essas perspectivas podem ser explicadas pelo
fato de Marx restringir o uso do termo trabalho ao período posterior
à Idade Média, enquanto que Durkheim aplica-o a todas as sociedades
que existiram ou existem. No entanto, é preciso deixar claro que
a aplicação do termo trabalho a todas as atividades produtivas só
ocorre a partir do fim do século passado. Antes disso era considerada
trabalho apenas a ocupação na produção que exigisse gasto de energia:
o comércio, a educação ou as artes não eram trabalhos. A utilização
da palavra trabalho para qualquer atividade que necessita de esforço
físico ou mental, antes ou durante a sua realização, é uma invenção
do século XIX, e deriva da idéia de trabalho abstrato exposta por
Ricardo e desenvolvida por Marx.
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DOMINAÇÃO
Há uma relação de dominação quando uma quantidade qualquer de indivíduos
obedecem a uma ordem vinda de parte da sociedade, seja ela composta
por uma ou por diversas pessoas. A dominação é sempre resultado
de uma relação social de poder desigual, onde percebe-se claramente
a existência de um lado que comanda (domina) e outro que obedece.
Podemos assemelhar assim a dominação a qualquer situação em que
encontremos indivíduos subordinados ao poder de outros. Mas a dominação
difere das relações de poder em geral por apresentar uma tendência
a se estabilizar, a procurar se manter sem provocar confrontos.
Em outras palavras, as relações de dominação dentro de uma sociedade
se caracterizam por buscar formas de legitimação, de serem reconhecidas
como necessárias para a manutenção da ordem social. O sociólogo
Max Weber apresentou, em um de seus estudos mais importantes, três
tipos puros de dominação legítima, cada um deles gerando diferentes
categorias de autoridade. São classificados como puros porque só
podem ser encontrados isolados no nível da teoria, combinando-se
quando observados em exemplos concretos. O primeiro deles é a dominação
tradicional. Significa aquela situação em que a obediência se dá
por motivos de hábito, porque tal comportamento já faz parte dos
costumes. É a relação de dominação enraizada na cultura da sociedade.
Um exemplo extremamente claro é o da família patriarcal: os filhos
obedecem aos pais devido a uma relação de fidelidade há muito estabelecida
e respeitada. O segundo tipo de dominação é a carismática. Nela
a relação se sustenta pela crença dos subordinados nas qualidades
superiores do líder. Essas qualidades podem ser tanto dons sobrenaturais
quanto a coragem e a inteligência inigualáveis. Podemos tomar como
exemplo qualquer grupo religioso centrado na figura do profeta,
que apenas através de suas habilidades e conhecimentos pessoais,
sem o uso da força, consegue arregimentar um grande número de seguidores.
O último tipo de dominação é a dominação legal, ou seja, através
das leis. Nessa situação, um grupo de os indivíduos submete-se a
um conjunto de regras formalmente definidas e aceitas por todos
os integrantes. São essas regras que determinam ao mesmo tempo a
quem e em que medida as pessoas devem obedecer. Um exemplo ilustrativo
é o do empregado que acata as ordens de um superior, seja ele o
patrão ou não, de acordo com as cláusulas (regras, leis) do contrato
assinado por todas as partes. Uma outra questão apontada por Weber
é que, conforme a relação de dominação tem seu alcance ampliado,
torna-se necessária a adoção de mecanismos que possibilitem a sua
expressão uniforme e que garantam a execução de suas ordens, mecanismos
estes que geralmente se apresentam sob a forma de equipes de apoio.
Cada um dos tipos apresenta uma maneira especial de selecionar pessoas
para essas equipes. Num contexto tradicional seus integrantes são
determinados conforme sua experiência, sua fidelidade e sua intimidade
com a tradição são reconhecidas pelo grupo e pelos seus superiores.
Em um ambiente carismático a equipe é pessoalmente escolhida pelo
líder, de acordo com as afinidades entre eles. Mas não podemos deixar
de assinalar a importância de que os escolhidos também apresentem
qualidades que garantam sua proeminência sobre a população. Por
fim, num meio mantido por regras comuns, a determinação dos membros
da equipe deve seguir, da mesma maneira, normas universais. Nesta
caso essas normas geralmente se resumem à competência e à eficiência
para executar as atividades necessárias, e a burocracia aparece
como sua forma mais completa.
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ELEIÇÕES
Em seu sentido mais amplo, as eleições são situações onde um certo
número de indivíduos iguais são levados a escolher uma alternativa
entre as tantas que lhe são oferecidas. Essa escolha pode recair
diretamente sobre uma decisão ou então sobre uma pessoa, que no
caso será seu representante e estará apta para decidir em nome de
todos. As eleições legitimam o poder que será conferido ao representante.
Já ocorriam eleições na antiga Grécia e posteriormente em Roma.
Os papas da Igreja Católica são há muito tempo escolhidos através
de eleições feitas pelos bispos. Na Inglaterra do século XVII já
existiam eleições para representantes no Parlamento (poder Legislativo).
Diversos clubes e empresas fazem eleições entre seus sócios para
preencher seus cargos administrativos. E as eleições são o método
utilizado para a escolha dos governantes em ambientes democráticos.
É portanto imprescindível diferenciar eleições de democracia: a
primeira é um componente da segunda. Chamamos de eleições quaisquer
escolhas feitas por mais de uma pessoa, podendo até mesmo ser encontradas
em ambientes não democráticos (nas décadas de 70 e 80 no Brasil,
em pleno regime autoritário militar, foram realizadas diversas eleições
para governadores estaduais, deputados e senadores). Já a democracia
é um sistema político mais amplo, onde são definidas regras não
só para a escolha dos governantes como para o próprio exercício
do governo. No entanto as eleições foram usadas por pesquisadores
para estabelecer uma escala de democracia onde seriam dispostos
os países que a praticam. Em outras palavras, através da amplitude
dos critérios utilizados para definir quem está ou não habilitado
a participar das eleições em determinado país é possível medir o
grau de democracia ali existente. Segundo esses pesquisadores, os
países mais democráticos são os que conferirem direitos políticos
(que são basicamente eleger e ser eleito, a maior fração de sua
população. Ao aplicarem essa escala nos mesmos países mas em épocas
diferentes eles demonstraram uma elevação no nível de democracia
daquelas nações. No início desse século poucas delas permitiam o
voto feminino, que só se torna comum por volta da 2.ª guerra mundial.
Hoje a maioria dos países, com pequenas variações, adota o sufrágio
(voto) universal apenas com limite mínimo de idade. No Brasil o
voto é facultativo a partir dos 16 anos e tornando-se obrigatório
aos 18 e voltando a ser facultativo após os 70. Na maioria das nações
da Europa o voto é obrigatório a partir dos 18, com limites máximos
de idade variáveis. Nos Estados Unidos o voto é facultativo, e seus
limites variam de estado para estado, oscilando entre 16 e 18 (mínimo),
e 60 e 70 (máximo). Esses países ainda apresentam algumas diferenças
quanto aos direitos políticos dos analfabetos, presos e militares
em atividade. O voto facultativo é alvo de alguma controvérsia.
Alguns argumentam que a obrigatoriedade é um atentado as liberdades
civis de expressão e de "ir e vir". Outros acham que o voto facultativo
"esvazia" as eleições, diminuindo a legitimidade conferida aos seus
vencedores, ou seja, se poucas pessoas votarem o governante "não
estará tão apto" a decidir em nome de todas. Ambas as posições são
defendidas de maneira consistente, e este é apenas um dos atuais
problemas relacionados às eleições. Outra questão importante refere-se
ao nível de informação do eleitor. Os indivíduos têm graus de instrução
específica e de conhecimentos gerais diferentes, e portanto comportam-se
de maneira diferente no momento do voto. Eles podem ser mais ou
menos sensíveis a pressões ou induções externas. Essas observações
já eram feitas no século XIX, e na Inglaterra levaram a adoção do
voto "plural" (onde era atribuído um peso ao voto de cada pessoa
de acordo com sua profissão, status e nível de renda), prática que
foi abandonada no final do século passado. A concepção de "one man
one vote" ou "cada cabeça um voto" derivada da busca pela igualdade
de direitos é hoje predominante nos países democráticos. No entanto
a questão da informação individual nas eleições aparece hoje com
renovada importância, principalmente em relação a expansão da propaganda
e do "marketing" políticos e as possibilidades de manipulação da
informação através dos meios de comunicação.
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ELITES
Quando dizemos que uma pessoa faz parte de uma elite, isto geralmente
significa que ela se encontra em uma posição que lhe confere ao
mesmo tempo privilégios e responsabilidades exclusivas, e que freqüentemente
exercem um poder sobre o grupo maior que o das pessoas comuns. Esses
atributos teriam origem em qualidades inatas ou adquiridas ao longo
da vida que são reconhecidas pelos integrantes do grupo, dando aos
seus detentores um justificado lugar de destaque. A questão das
elites é muito antiga no pensamento social, recuando até os filósofos
gregos como Aristóteles e Platão, que apontavam regimes de governo
comandados por "homens privilegiados" - as oligarquias. Sem grandes
modificações de conteúdo, também é possível definir elite como o
conjunto dos indivíduos melhores qualificados em cada atividade
profissional, aqueles que obtiveram e obtêm maior sucesso em suas
carreiras. Há uma elite entre os médicos, outra entre os advogados,
entre os professores, entre os artistas e assim por diante. Cada
uma delas, pelos seus diferentes motivos, tem alguma proeminência
tanto sobre os seus semelhantes quanto sobre o restante da população.
Alguns sociólogos ressaltaram essa ampliação do alcance do poder
das elites, que apesar de se originar em um grupo restrito de indivíduos
com atividades parecidas estende-se a todos os membros da sociedade
independente de sua posição. A partir desse ponto-de-vista, alguns
pensadores conceberam que todas as pessoas são influenciadas pelas
ações de alguma elite a qual estão ligadas, sendo por isso mesmo
chamados de "elitistas". Para eles existem grandes diferenças entre
o comportamento de um integrante da elite e de uma pessoa comum.
O primeiro estaria mais habilitado para tomar decisões devido aos
seus maiores conhecimentos, assim como para implementar essas decisões
por causa do prestígio e do poder acumulado até a sua posição. Alguns
pensadores chegaram mesmo a propor uma teoria elitista da democracia,
onde apenas as elites, cujas capacidades já foram comprovadas, estariam
aptas para concorrer aos cargos públicos, competindo entre si pelo
voto do restante da população. Aproxima-se portanto da oligarquia
de Aristóteles (que era considerada por ele como uma boa forma de
governo), acrescentando-lhe o voto universal e a existência de várias
elites, que fiscalizariam-se mutuamente. Nesse ponto é preciso deixar
claro que ao reconhecermos a presença de elites em uma sociedade,
este fenômeno é reflexo de uma relação de dominação, seja ela baseada
em critérios racionais, tradicionais ou carismáticos. As elites
sempre implicam em poder sobre o restante da população. Partindo
dessa idéia que as elites estão sempre ligadas ao poder, Wright-Mills
concluiu que elas freqüentemente encontram-se interligadas, formando
uma só elite. Sua ação seria direcionada para fortalecerem-se mutuamente,
e não para competir de maneira a dividir o poder. Ao acompanhar
a história dos Estados Unidos, Wright-Mills demonstra como os interesses
das elites foram convergindo, passando da promoção de interesses
exclusivos e imediatos ao interesse pela manutenção e expansão do
próprio poder. Por exemplo, os altos militares estão preocupados
com a preservação de uma área de fronteira. Já algumas grandes empresas
estão interessadas em explorar os recursos minerais daquela área.
Ao mesmo tempo, a população do local cobra através de seus líderes
alguma ajuda do governo nacional. Essas três elites (altos oficiais,
grandes empresas e líderes locais) podem agir separadamente, mas
certamente terão maior possibilidade de ter seus desejos atendidos
se pressionarem conjuntamente uma atitude do governo, explicando
as múltiplas questões envolvidas e demonstrando que elas podem ser
melhor resolvidas de forma simultânea. Assim, o governo isenta de
impostos por um certo período as empresas que se instalarem naquela
região, desde que estas se comprometam a cooperar com a manutenção
dos postos de fronteira e dos quartéis da região, gerando também
empregos para os moradores. No entanto a teoria de Wright-Mills
da existência de uma elite única pressupõe um elevado grau de comunicação
entre seus setores, que possibilite o conhecimento dos objetivos
de cada um deles, assim como que eles apresentem alguma identificação
entre si (interesses comuns ainda que sem causas comuns). Na realidade
as várias elites podem ou não unirem-se em um único grupo, mas isso
dependerá do momento atravessado por elas, e das dificuldades em
alcançar seus objetivos.
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ESTADO
A linha de pensamento mais aceita para explicar a existência desse
tipo de organização humana que chamamos de Estado foi iniciada no
século XVIII com os teóricos contratualistas, destacando-se entre
eles Rousseau e Hobbes. Partindo de uma mesma perspectiva filosófica,
mas com algumas diferenças, esses pensadores argumentam que o homem
a princípio se encontraria em um "estado de natureza", no qual ele
seria completamente livre e com o dever único de sobreviver. As
relações entre as pessoas seriam regidas então pela "lei do mais
forte". Mas como nenhum homem tem força suficiente para garantir
sempre o seu bem-estar, ele procura então estabelecer acordos com
outros homens, que permitam a sua coexistência pacífica. Dito de
outra forma, a partir de um determinado momento, os obstáculos à
sobrevivência no estado de natureza ultrapassam as possibilidades
de cada pessoa, obrigando-as a unir-se e agir em conjunto. Da competição
natural passa-se então para a cooperação, criada a partir do pacto
entre os homens, ou "Do contrato social", como apresenta Rousseau
no título de sua principal obra. Neste contrato, cada homem abdicaria
de sua autonomia individual em benefício da estabilidade da vida
em comum. Sua segurança e suas liberdades, que agora recebem o nome
de direitos, passam a ser garantidas por uma entidade única, que
monopolizará o uso da força: o Estado. Outro pensador, Montesquieu,
percebeu que para realizar com eficiência as tarefas que lhe cabem
segundo o "pacto", o Estado deve concentrar o poder da sociedade
em que se encontra. Para tanto ele tem de ser o único responsável
naquele território por três atividades essenciais: a administração
dos negócios de interesse coletivo, com os indivíduos e com outros
Estados; a elaboração das leis que regem a sociedade e o próprio
funcionamento do Estado; e a aplicação dessas leis de maneira homogênea
a todos os homens, garantindo a justiça. Esta classificação feita
por Montesquieu dará origem a divisão do Estado em três poderes,
respectivamente Executivo, Legislativo e Judiciário, que hoje é
adotada em quase todos os países do mundo. Mas a forma como o Estado
e a sociedade se relacionam variou muito ao longo do tempo, o que
possibilita identificarmos pelo menos três modelos distintos. O
primeiro deles é o Estado Moderno Absolutista, existente na Europa
dos séculos XV a XVIII. Este é caracterizado pelo regime monárquico,
onde o imperador concentrava os três poderes acima descritos. Assim
não havia limites para a ação do Estado, que chegava até onde o
imperador desejasse, pois era ele o responsável tanto pela formulação
quanto pela aplicação das leis. É exatamente pela ausência de limites
para sua atuação que é classificado como absolutista. A partir do
século XVIII, esta forma de Estado entrou em choque com homens que
viam nele uma tendência muito forte a desprezar as liberdades individuais
(de ir e vir, de expressão, de pensamento, de propriedade), contrariando
as suas finalidades originais. Com isso, tentaram colocar limites
legais para a sua intervenção, conferindo seus três poderes a diferentes
grupos de pessoas, e fixando-os sob a forma de uma Constituição.
A Constituição é o conjunto de leis que rege tanto a conduta dos
indivíduos para o Estado quanto do Estado para os indivíduos. Esta
forma de Estado tinha a característica de permitir a participação
de pelo menos parte da população na escolha dos integrantes de dois
poderes (Executivo e Legislativo), além do objetivo expresso de
garantir as liberdades individuais. Por esses motivos pode ser chamado
de Estado Democrático Liberal. Uma terceira forma de Estado, que
surge no século XX, é aquela que convencionou-se chamar de Estado
do Bem-Estar (Welfare State). Sua peculiaridade reside em que além
de garantir as liberdades individuais e políticas, ele se preocupa
também em fornecer as condições básicas para a sobrevivência de
seus membros, como o atendimento à saúde, a educação e a moradia.
Esta forma de Estado foi proporcionada pela ampliação da cidadania
aos segmentos mais pobres da população, que passaram a cobrar dos
governantes medidas para atenuar sua situação de miseráveis e de
excluídos da vida social.
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ESTRATIFICAÇÃO
Em toda sociedade é possível distinguir grupos constituídos por
pessoas que apresentam semelhanças quanto a certos critérios. Cada
um desses grupos compõe um estrato da sociedade. A estratificação
social corresponde desta forma a classificação dos membros da população
de uma sociedade segundo alguns critérios pré-estabelecidos. A forma
mais conhecida de estratificação é a que agrupa os indivíduos em
classes. Os integrantes de cada classe seriam determinados pela
sua situação financeira: os mais ricos formam a classe alta, a classe
baixa é integrada por indivíduos pobres, havendo uma classe média
entre essas duas. Mas os estratos podem ser mais numerosos que estas
três classes, uma vez que podem ser definidos conforme uma infinidade
de outros critérios. Weber apresentou dois outros tipos de estratificação
além daqueles feitos por critérios econômicos. O primeiro deles
é a estratificação por grupos de status, que ordena seus integrantes
conforme o prestígio que a sociedade lhes confere, independentemente
de sua situação econômica. Assim um atleta olímpico pode ser colocado
em um status mais alto que o de um dono de supermercado, ainda que
tenha uma renda inferior a este. O segundo tipo de estratificação
tem como referência o poder dentro da sociedade. Seguindo este critério,
colocaremos os indivíduos em estratos conforme sua capacidade em
influenciar o comportamento de outros. A estratificação precisa
nesta caso é muito difícil, pois passaria pela contabilidade de
quantas pessoas cada um pode influenciar, e até onde essa influência
pode ser realizada. Mas é possível supor no mesmo nível de poder
um líder sindical sem instrução superior, um latifundiário que comanda
a vida numa cidade do interior, um sacerdote de uma paróquia e qualquer
pessoa que adquira um cargo público. Vale ainda lembrar aqui que
geralmente na estratificação pelo poder o estrato mais alto será
ocupado pelos partidos políticos. Deve estar claro então que o número
de estratos de uma sociedade varia de acordo com o problema colocado.
Em geral a estratificação é a etapa inicial de uma observação que
tem como objeto um grupo social muito extenso. Para facilitar a
aproximação dos fatos, estabelece-se alguns critérios que sirvam
de referência para possíveis comparações. Toda estratificação implica
no estabelecimento de uma hierarquia entre os estratos, no qual
o nível máximo é sempre ocupado por uma elite. No entanto é preciso
ressaltar que quem estratifica são os observadores, e não a sociedade,
para quem seus membros fazem parte de uma só massa heterogênea.
As condições sociais que possibilitam a estratificação de indivíduos
são objeto de muita controvérsia. Em geral apelam para a divisão
do trabalho ou para a concorrência do mercado como fontes originais
da estratificação. A verdade é que as explicações para a possibilidade
de estratificação passam por entender o processo de diferenciação
entre os integrantes de uma sociedade, e portanto o contínuo processo
de mudança a que ela está submetida. => Classe, Elite, Grupos, Mudança
social, Status, Partidos ESTRUTURA No pensamento social podemos
identificar pelo menos três diferentes correntes que utilizaram
o termo estrutura, sendo definido diferentemente por cada uma delas.
A primeira corrente vem da Sociobiologia, disciplina difundida por
Spencer, que entende que a sociedade as mesmas leis da evolução
universal que a um organismo vivo. Este é formado por partes interligadas
e com funções definidas em relação a unidade que constituem, ocorrendo
o mesmo com o sistema social. A idéia de estrutura designa neste
caso as partes essenciais de uma sociedade, que a sustentam e lhe
dão coerência interna. É o "esqueleto" da sociedade. O segundo uso
de estrutura deriva do primeiro, sem as suas conotações biológicas,
e ressalta as características funcionais da estrutura social. Segundo
Parsons, a estrutura da sociedade pode ser observada pela existência
de uma rede permanente de relações entre os homens. Essa rede apresentaria
dois aspectos: de um lado há a posição que um indivíduo ocupa nesta
rede, ou seja, seu status; de outro existem as funções que o indivíduo
desempenha a partir daquela posição, o seu papel na sociedade. Devido
a esta duplicidade convencionou-se chamar tal corrente de "estrutural-funcional",
e que posteriormente irá desenvolver a aplicação do conceito de
sistema a disciplina sociológica. A terceira utilização da idéia
de estrutura foi desenvolvida principalmente por Lévi-Strauss na
antropologia francesa, que sustenta a tese que as sociedades, apesar
das suas mais diferentes manifestações, apresentam padrões de organização
possíveis de serem reduzidos a um núcleo comum, por originarem-se
todas do gênero humano. Toda sociedade teria aspectos que poderiam
ser analisados a partir do estabelecimento desse núcleo, que se
assemelharia a uma estrutura comum a partir da qual as sociedades
estabeleceriam cada uma o seu código de significados. Por isso mesmo
essa corrente foi denominada Estruturalismo. De maneira mais simplificada,
podemos dizer que fazem parte da estrutura social todos os fenômenos
que afirmam e refletem o estado de associação em que o homem se
encontra, todos os símbolos e comportamentos que existem independentes
de cada um dos indivíduos. Existiam antes que cada um deles nascesse
e continuarão existindo depois que eles morrerem. A estrutura social
representa portanto tudo aquilo que é imprescindível a manutenção
da ordem interna da sociedade. Podemos identificar partes da estrutura
social em diversos setores da sociedade: na economia, na família,
nos costumes, etc. São estruturas porque são organizações coerentes,
que servem de base para o desempenho das funções de cada pessoa
naquele setor. Mas ainda que sejam internamente coesas, as estruturas
sociais nem sempre se apresentam coerentes entre si. Um bom exemplo
de conflito estrutural na sociedade atual é a discordância que existe
sobre a utilização de preservativos nas relações sexuais: a despeito
dos reconhecidos problemas que podem causar sobre a estrutura de
saúde (transmissão de doenças como AIDS, sífilis) e sobre a estrutura
econômica (superpopulação, pobreza, desemprego), a maioria das igrejas
(representantes da estrutura religiosa) opõe-se a adoção de métodos
de controle de natalidade. Há neste caso uma tensão estrutural,
um conflito social que só terminará com a adaptação de uma delas
às novas condições impostas pelo desenvolvimento da sociedade.
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FUNÇÃO
A idéia de atribuir às partes de uma sociedade alguma finalidade
na manutenção da mesma aparece nas ciências humanas adaptada da
Biologia, e foi amplamente utilizada por algumas correntes da Antropologia
e posteriormente da Sociologia. A identificação de finalidades ou
funções em instituições sociais foi uma teoria resultante das primeiras
pesquisas de campo antropológicas, em meados do século XIX, realizadas
por Malinowski com tribos da Polinésia. Através da observação dos
hábitos dos nativos ele construiu alguns "modelos de comportamentos",
relativos a função desempenhada pelo nativo em certos contextos.
A combinação eficiente de tais funções constituiriam um sistema
de interação que seria a própria estrutura social do grupo em questão.
Ele observou por exemplo que as tribos de diferentes ilhas faziam
extensos rituais, diferentes entre si, depois dos quais se encontravam
em locais neutros para trocar braceletes e colares. Malinowski apontou
que a função daquela troca não está exatamente no valor dos objetos,
mas na própria conclusão do intercâmbio, que tem significados simbólicos
e religiosos muito importantes para os nativos. Ressaltava assim
a interligação de sistemas e funções religiosas, culturais e econômicas
na composição de uma sociedade. Na Sociologia o termo função foi
aplicado de maneira muito semelhante, principalmente na sociologia
norte-americana. A comparação de grupos humanos a um sistema e a
identificação de funções para seus elementos é um dos fundamentos
da teoria das organizações. Alguns de seus autores, como Parsons,
apresentam ainda o conceito de papel como intermediário entre as
funções e o sistema: cada papel concentraria algumas atividades
específicas (funções), sempre referentes ao ambiente em se encontra
o "ator" (família, escritório, estádio). Esta teoria funcionalista
é bastante eficaz para o entendimento de grupos reduzidos, principalmente
aqueles que apresentam forte estabilidade, com poucos e simples
mecanismos de controle de seu comportamento interno. No entanto,
quando é aplicada a situações em que o número de participantes é
muito elevado, e portanto as relações entre eles mais complexas,
ela mostra-se incompleta. Isto se deve ao fato de que os arranjo
funcionais são construídos depois da observação, e portanto aplicáveis
apenas até aquele momento. Quaisquer mudanças é excluída da análise,
porque esta se baseia numa "fotografia" da sociedade, na sua observação
estática (imóvel), onde não cabem transformações. A possibilidade
de teorização depois da observação permite ainda atribuir funções
diferentes para o mesmo ato, dependendo da ótica de quem o pratica,
e que não levam a conclusão alguma. Um quadro pendurado na parede
pode ter a função de decorar a sala, mas também pode servir para
demonstrar o "gosto pelas artes" do dono da casa. Ou então pode
ser simplesmente para agradar o cunhado rico que o pintou e pode
fazer uma visita qualquer dia. Assim o uso da idéia de função, assim
como de instituição deve ser feito com atenção, e nunca tomado com
exclusividade. Ao contrário, a análise funcional pode ser muito
útil se acompanhada de uma busca pelas origens daquelas funções,
e de comparações que mostrem se seus significados ainda são válidos
ou estão ultrapassados, e principalmente se são os mesmos para os
integrantes do grupo.
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GRUPOS
O termo grupo tem aplicações em diversas ciências, como
a Biologia e a Matemática. Em Sociologia ele é utilizado para designar
qualquer situação coletiva, isto é, em que encontremos mais de um
elemento. Esta definição ao mesmo tempo extremamente simples e ampla
pode paracer banal a primeira vista, mas não é bem assim. A situação
de grupo, a convivência entre elementos da mesma espécie tem implicações
importantes para a Sociologia. A constante relação entre homens
infalivelmente leva a padronizações de comportamentos pelos integrantes
do grupo, seja por simples cópias e repetições espontâneas ou por
acordos conscientemente realizados. Esse fenômeno foi chamado "efeito
de grupo", sendo estudado tanto por psicólogos quanto por sociólogos
(e todas as combinações intermediárias), com muito mais divergências
do que consenso entre eles. Muitos deles tentaram e continuam tentando
construir modelos ou teorias que expliquem o "efeito de grupo",
que se mostram incompletos quando são aplicados além do universo
utilizado para construí-lo. Em outras palavras, as conclusões tiradas
a partir da observação de um determinado grupo dificilmente poderão
ser estendidas a outros. Vejamos a seguinte situação. Alguns carros
estão parados num semáforo de um cruzamento às duas horas da manhã.
Passam-se alguns minutos, o sinal não fica verde, e entanto não
veio nenhum automóvel pela outra rua. Um primeiro carro não espera
e parte mesmo com o sinal fechado. Em seguida os outros que também
estavam parados também saem sem esperar. Certamente a saída do primeiro
influenciou os outros motoristas, mesmo sem eles terem sequer se
olhado. Esse é um típico efeito de grupo. No entanto é provável
que eles nem o fizeram pelos mesmos motivos. Um realmente estava
com pressa, enquanto outro não quis "fazer papel de bobo" ficando
parado enquanto não vinha ninguém na transversal. Um terceiro já
estava sendo induzido a arrancar pelo passageiro a seu lado quando
o primeiro saiu, e um quarto nem percebeu qual a cor do sinal e
partiu porque os outros partiram. Outros exemplos ótimos de efeitos
de grupo são as gírias de vocabulário e as modas de roupas entre
os jovens, para não falar em linchamentos e torcidas de futebol.
São condutas que se espalham entre as pessoas sem motivos comuns
aparentes. São esses motivos "ocultos" que alguns cientistas vão
buscar, uns com ênfase nas causas e conseqüências pessoais desse
comportamento para cada integrante, outros tentando relacioná-los
(os indivíduos e o grupo, que é mais que a soma daqueles) a outros
grupos maiores e mais influentes aos quais eles também pertencem.
A primeira abordagem é predominante na Psicologia e a segunda na
Sociologia, e ora se completam ora se chocam. A classificação da
sociedade em grupos é diferente da sua estratificação. A estratificação
procura abranger todos os integrantes da sociedade e colocá-los
em diferentes níveis segundo os mesmos critérios. Já os grupos podem
se referir a apenas uma pequena parte da sociedade, e não levam
necessariamente a uma hierarquização entre eles, podendo ser mais
fluidos que os estratos. Em resumo, todo estrato é um grupo, mas
nem todo grupo é um estrato. Dependendo da argumentação a ser desenvolvida
e dos objetivos a que se quer chegar, um grupo pode variar de uma
família a um país, passando pelas empresas, sindicatos, times de
futebol, O.N.G.'s, moleques de rua, "patricinhas", eleitores...
Portanto em Sociologia é essencial o estabelecimento claro dos limites
e das características do(s) grupo(s) a ser(em) observado(s), como
parte do seu próprio método de análise.
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