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DICIONÁRIO
POLÍTICO
Estes verbetes foram pesquisados por Maurício Assumpção
Moya, Bacharel em Ciências Sociais e Mestre em Ciência
Política pela Universidade de São Paulo.
Se você tem dúvidas ou não encontrou algum verbete
aqui, escreva para
agora@agoranet.org.br
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T U V
IDEOLOGIA
Ideologia é outro dos conceitos básicos de Sociologia que tem várias
origens e interpretações. Em Marx ela assume um caráter essencialmente
negativo: é a falsa consciência. Para ele, ideologia é qualquer
formulação teórica das relações sociais que não tenha por base a
produção material. Em outras palavras, a ideologia para Marx é resultado
da percepção incompleta do funcionamento da sociedade, o que faz
com que tomemos como imprescindível uma ordem de coisas que não
o é, acreditando ser original uma situação que é na verdade um efeito,
uma conseqüência do estado de alienação em que se encontram os indivíduos.
Só a consciência é capaz de apreender o que realmente determina
a organização social, e a partir daí orientar a ação das pessoas.
Outros autores preferem definir a ideologia de maneira mais genérica,
como todo conjunto organizado e coerente de idéias que servem de
parâmetros para a conduta individual ou coletiva. Toda ideologia
implicaria portanto numa interpretação da realidade a partir de
uma posição social específica, com o intuito de justificar as decisões
que são tomadas a partir de lá. Em linhas gerais a ideologia é uma
teoria que valoriza arbitrariamente algumas idéias em detrimento
de outras, seguindo exclusivamente a perspectiva de seu formulador.
Isto explica porque o uso do termo ideologia é mais freqüentemente
usado no cenário político, onde as decisões e ações precisam ser
sustentadas por argumentos fortes e consistentes. Quando dois partidos
assumem posições diferentes ou mesmo conflitantes frente a um tema
qualquer, geralmente isso ocorre por diferenças ideológicas entre
eles. Cada partido tem um conjunto de valores e interesses que acredita
ser mais desejável, tanto para seus membros para a população como
um todo. A ideologia é um com freqüência um reflexo da ausência
de consenso acerca de um problema. Onde as decisões não obedecem
critérios claros e reconhecidos por todos, cada pessoa tende a se
comportar seguindo as suas convicções, a sua maneira de ver o mundo.
Surge a ideologia quando diversas pessoas se unem sob convicções
comuns, e dão a estas uma formulação explícita. Nesta caso podemos
classificar qualquer religião como uma ideologia, assim como doutrinas
não religiosas tais quais o fascismo, o nazismo, o liberalismo ou
o socialismo. São interpretações parciais da vida social que pretendem
ser aplicadas a sua totalidade. A noção de ideologia pode ser entendida
também como uma crença em valores específicos de um grupo, que respondam
as questões enfrentadas por esse grupo na sua sobrevivência. É uma
doutrina, um código de conduta. Em condições que tenha alguma liberdade
de escolha, o indivíduo irá agir de acordo com os seus princípios,
com o que considera bom ou ruim, o que limitará tanto os fins quanto
os meios de sua ação. As ideologias estão portanto presente em todas
as sociedades, podendo ou não ser conflituosas. Isto dependerá dos
próprios ideais que ela contiver, e do contexto social em que ela
se encontrar, isto é de sua interação com outros códigos de conduta
presentes na sociedade em questão.
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IGUALDADE
Muitos pensadores sociais atribuíram à questão da igualdade entre
os homens um lugar de preponderância na ordem social. Como tentam
demonstrar os contratualistas, os homens abrem mão de sua autonomia
individual em troca de direitos garantidos pelo Estado a todos eles,
de forma equivalente. Portanto esse pacto se dá sobre o pressuposto
da igualdade entre os homens perante as normas que estabeleceram.
Em conseqüência disso a sociedade só se manteria enquanto fosse
capaz de promover a igualdade entre seus membros, ou em outras palavras
a justiça, assegurando-lhes sempre os mesmos direitos. A doutrina
igualitarista teve sem dúvida grande influência no desenvolvimento
da sociedade. Após a Idade Média, com o advento do Estado Moderno,
as pessoas passam a ser reconhecidas como igualmente capazes de
trabalhar, de possuir bens, de casar-se. Com o progresso das instituições
políticas, a partir do final do século XVIII há um processo ampliação
do sufrágio (voto), que equivale a uma igualização dos direitos
políticos. Depois disso, conforme nossas sociedades vão se tornando
mais produtivas e abundantes, as diferenças de renda entre as camadas
mais pobres e as mais ricas tendem a diminuir - ou melhor dizendo,
eram vistas como algo que devesse ser diminuído. A ideologia da
busca permanente da igualdade pela sociedade começa a apresentar
problemas ao final do século XIX, quando as crescentes desigualdades
provocadas pelo desenvolvimento do capitalismo e da sociedade industrial
tornam-se realmente evidentes. Nesse momento surgem duas novas proposições.
A primeira continua a defender a igualdade entre os homens como
um ideal a ser alcançado pela sociedade, mas aponta que este não
será atingido se ela for deixada ao bel-prazer de seus membros.
Haveria portanto a necessidade de planejar a produção para que fosse
possível distribuir seus resultados de maneira equivalente a todos
os indivíduos. Esta proposta foi chamada de socialismo, justamente
por defender a socialização da produção e da riqueza. Já a outra
proposta recupera a argumentação paradoxal sobre a igualdade feita
por Aristóteles. Ele enuncia que, se por um lado os homens devem
ser tratados igualmente pela sociedade, eles também devem receber
dela benefícios proporcionais a sua contribuição individual. Assim,
ao mesmo que mantém a valorização da igualdade, possibilita agora
explicar a desigualdade em virtude das diferentes contribuições
que cada um dá a sociedade. Quem contribuir mais, receberá mais,
e se diferenciará devido aos próprios méritos. Nessa perspectiva,
a desigualdade origina-se na própria procura do homem em melhorar
sempre. Toda essa discussão se faz necessária para compreender que,
hoje em dia, tanto a igualdade quanto a desigualdade são fundamentais
à sociedade, e não devem ser tomadas isoladamente. Por um lado é
preciso que haja igualdade perante a lei, caso contrário corre-se
o risco de que a prática impune de crimes ponha em risco a ordem
social. Por outro, muitas atividades precisam de espaço para a inovação
e a diferenciação, pois só assim podem contribuir para melhorar
a qualidade das relações sociais. A concorrência, imprescindível
para o bom funcionamento do sistema capitalista, e por isso tão
cara aos empresários e comerciantes, só se mantém enquanto houver
a desigualdade entre os produtos oferecidos. É importante perceber
que igualdade e desigualdade são idéias complementares, e que são
utilizadas conforme o assunto que se deseja abordar. Na verdade,
os homens tendem a desejar a igualdade quando outros estão em posição
mais privilegiada que a deles, e procuram a desigualdade quando
estão todos nas mesmas condições. É por isso que tanto o igualitarismo
pregado pelas camadas menos favorecidas e a competição (geradora
de desigualdade) assumem caráter ideológico: não podem ser generalizadas,
pois são idéias determinadas posição social de quem as formula.
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IMAGINAÇÃO SOCIOLÓGICA
Com o elevado grau de desenvolvimento atingido pelos meios de comunicação,
nos dias de hoje saber onde encontrar qualquer tipo de informação
não aparece como uma grande dificuldade para boa parte da população.
As grandes redes de comunicação, seja através de rádio, televisão,
imprensa ou computadores, fazem parte do cotidiano de inúmeras pessoas,
fornecendo-lhes toda a informação necessária para que mantenham-se
atualizados com o que ocorre em outros lugares, como a cotação da
bolsa de valores de Nova York ou o andamento das negociações de
paz no Oriente Médio. Mas não foi sempre assim, e até poucas décadas
atrás o fluxo de informações não era tão intenso e o acesso a ele
muito mais restrito. Era praticamente impossível a pessoas comuns
perceber em que medida fenômenos distantes do seu dia-a-dia podiam
alterá-lo. Atualmente podemos identificar com alguma clareza que
parte da nossa situação pessoal é influenciada por acontecimentos
mais amplos e que ultrapassam os limites individuais de nossos relacionamentos.
Quando um jovem estudante falha ao prestar um exame vestibular,
muitas vezes podemos creditar tal fracasso exclusivamente à sua
preguiça ou incapacidade. Mas quando descobrimos que este estudante
lecionou em escola pública, e consideramos este fato ao lado da
reconhecidamente baixa qualidade do ensino gratuito em nosso país,
outras interpretações podem surgir. Possivelmente ele estava mal
preparado não apenas por seus próprios defeitos, mas em grande parte
também pela educação insatisfatória que lhe foi fornecida. Uma questão
geral (baixa qualidade do ensino público) pode estar causando problemas
a nível individual (fracasso no vestibular). Esta qualidade intelectual
que nos permite estabelecer onde perturbações na vida individual
são reflexo de questões estruturais da sociedade foi denominada
"imaginação sociológica" pelo sociólogo americano Wright Mills,
que a apresentou e desenvolveu num livro de mesmo nome. Uma pessoa
que tenha esta qualidade pode mais facilmente entender sua interação
com o meio social, uma vez que consegue enxergar com maior nitidez
as influências deste sobre a sua trajetória pessoal. Através da
imaginação sociológica é possível localizar onde a biografia de
cada um é influenciada pelos acontecimentos históricos. Se existem
em nossas garagens carros movidos a álcool, é porque foi necessário
criar combustíveis alternativos aos derivados de petróleo, em uma
época que seu preço elevou-se e seu suprimento estava ameaçado.
Hoje, apesar de recuperada a estabilidade do petróleo, a produção
de álcool continua gerando empregos e sustentando indústrias, mesmo
não havendo mais a preocupação de substituir a gasolina. Colocada
desta forma, este conceito aproxima-se da idéia de consciência apresentada
por Marx. Ambas podem ser vistas como a capacidade dos homens de
entenderem-se simultaneamente como agentes e produtos da História.
Tanto através da "imaginação sociológica" como da "consciência"
os homens podem perceber quando e quanto suas vidas são afetadas
pela estrutura social e de que maneiras eles podem contribuir para
alterar ou manter esta estrutura. Assim, este tipo de consciência
não é privilégio apenas de filósofos ou acadêmicos, mas de todo
e qualquer profissional que trabalhe ao mesmo tempo com diversos
setores da sociedade, desde artistas a jornalistas, professores
e advogados, sem falar nos políticos. Todos estes precisam saber
as causas de acontecimentos corriqueiros como a variação taxa do
câmbio ou excepcionais como uma colheita recorde, e suas conseqüências
para a vida diária das pessoas.
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INDIVIDUALISMO
O indivíduo é uma unidade de referência básica para a maior parte
das teorias sociológicas, sendo normalmente usado como sinônimo
para homem, pessoa, personalidade, ser humano. No entanto a ação
individual é apenas o ponto de partida para argumentações mais amplas.
A Sociologia considera que os indivíduos estão sempre em contato
uns com os outros, comunicando-se das mais variadas maneiras. Ela
se preocupa com as causas e conseqüências das ações individuais
que remetem a esta condição de contato contínuo e inevitável entre
as pessoas, e não apenas às vontades exclusivas de quem age. Em
outras palavras, ela busca identificar os padrões de relacionamento
que vão sendo criados pela a convivência mútua, que estão ligados
tanto a origem quanto a manutenção da sociedade. Esses padrões servem
de orientação para a conduta de cada um, podendo ser chamados de
valores ou de instituições conforme a corrente de pensamento. Em
todo caso, são eles os pontos de partida para inúmeras atitudes,
que podem criar novas relações e novos valores ou instituições.
Assim, a sociedade se reproduz através das ações de seus integrantes,
desde que estas se pautem em critérios comuns. O individualismo
surge quando esses critérios passam a não ser mais "tão comuns",
possibilitando que cada indivíduo estabeleça seu próprio código
de conduta. As conseqüências desse fenômeno para a sociedade são
óbvias: instabilidade, desordem, concorrência desleal, geralmente
levando a conflitos e a violência. Muitos autores apontaram as conseqüências
prejudiciais do individualismo. Para Durkheim e para Marx ele tem
origem na divisão do trabalho. Mas para Durkheim o individualismo
da divisão do trabalho é condenável apenas quando não é acompanhado
de normas que limitem a sua extensão. Do contrário os indivíduos
com valores "desviantes" podem ser levados a praticar crimes ou,
no limite de sua desorientação cometer um suicídio egoísta. Ainda
segundo Durkheim, a disseminação de comportamentos individualistas
levam inevitavelmente a anomia. Já para Marx o individualismo aparece
sob o nome de alienação, correspondendo a ruptura das relações entre
os homens, ou melhor dizendo, da não-percepção pelos homens das
relações entre eles mesmos. É uma conseqüência da especialização
das atividades provocada pelo capitalismo, e potencializada pelas
inovações tecnológicas. Hoje em dia é possível a um profissional
cuidar de toda uma linha de montagem sentado em uma mesa cheia de
botões, quase sem contato com outros empregados e sem nenhum com
o produto ou o consumidor. Como também um jornalista ou um escritor
pode ficar em casa e recebendo e enviando textos pela linha telefônica,
analisando fatos sem nunca presenciá-los ao vivo. Outra visão sobre
o individualismo é a de Tönnies, para quem este é o comportamento
oposto ao esperado pela comunidade. Enquanto na comunidade os valores
são compartilhados de tal forma que fazem os homens sentirem-se
como uma só entidade homogênea, agindo quase que por instinto, na
sociedade tönniesiana o individualismo é o comportamento calculado,
fundamentado no desejo de diferenciação, de ser único. Nem por isso
é considerado negativo, pois faz parte da natureza humana, mas precisa
ser contrabalançado por comportamentos comunitários. Há autores
que dão ênfase aos efeitos benéficos do individualismo, como Adam
Smith. Segundo ele é apenas procurando p melhor para si que cada
homem contribuirá eficientemente para o avanço social, pois caso
se preocupe com os outros, estes se tornarão preguiçosos e dependentes
de quem lhe ajudou, transformando-se em verdadeiros pesos para a
sociedade. O individualismo também é a base do utilitarismo, doutrina
da qual se originou a Economia, e que ensina que cada homem tem
a propensão de medir todas as suas atitudes em termos de custos
e benefícios que elas lhe trarão, procurando sempre maximizar o
prazer e minimizar a dor.
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INSTITUIÇÕES
Na Sociologia o termo instituição deriva da argumentação clássica
de "instituir um povo", que foi definida como fazer com que um grupo
de indivíduos, movidos por paixões e interesses que os separam uns
dos outros, reconheçam uma autoridade exterior às suas preferências,
e concordem em submeter se a ela. Assim as instituições estão na
origem da sociedade, sendo que todas elas apresentam as suas instituições.
Mais que isso, são geralmente as instituições que evidenciam as
principais diferenças entre os grupos humanos. Elas podem ser valores,
comportamentos ou mesmo organizações que têm relativa importância
para a manutenção da sociedade. No entanto é possível ampliar essa
idéia, e levá-la mesmo aos princípios arbitrariamente escolhidos
por um indivíduo para orientar-lhe a ação. Uma pessoa pode portanto
ter suas próprias instituições, mas numa situação de convivência
é melhor que elas coincidam com outras adotadas por outras pessoas.
Alguns autores utilizam esse termo em seu sentido mais amplo, aplicando-o
a qualquer conduta, individual ou coletiva, que é desejada ou estimulada
pela sociedade. Assim o trabalho honesto, a solidariedade, a obediência
ao Estado, são todas instituições. Levando essa aplicação ao exagero,
mas sem comprometer-lhe a validade, é possível dizer que não cutucar
o nariz é uma instituição, pois além de ser anti-higiênico (a higiene
é uma instituição), demonstra falta de educação (outra instituição).
Os primeiros pensadores que procuraram estabelecer uma definição
precisa para esse termo foram os sociólogos da escola de Durkheim,
para quem instituições correspondem a "expressão perceptível de
maneiras de fazer, de sentir e de pensar extremamente padronizadas,
quase constantes". Essa "expressão perceptível" pode assumir a forma
de atitudes isoladas, mas também podem confluir para uma organização
que a representa. A instituição trabalho leva a criação da instituição
indústria, cujos resultados fortalecem as instituições financeiras
(bancos). A valorização da saúde leva a construção de hospitais,
a educação provoca a organização de escolas. Essa capacidade das
instituições de se espalharem e influenciarem comportamentos vai
ser posteriormente chamada por Durkheim de coerção social. Como
se vê, as sociedades apresentam inúmeros princípios institucionalizados,
cada um acarretando outros tantos comportamentos, relações e associações
que os representam, podendo todos serem chamados de instituições.
Justamente por se apresentarem interligadas, é comum entende-las
como partes de um sistema. O sistema econômico tem suas próprias
instituições: a concorrência, as empresas, os bancos, o lucro. O
sistema político tem as suas: o Estado, a burocracia, os partidos.
É necessário portanto algum cuidado ao atribuir essa qualidade a
certos fenômenos, sob o risco de se naufragar em um mar de instituições,
sem chegar a conclusão alguma.
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LIBERALISMO
O liberalismo é uma doutrina que enfatiza a importância das liberdades
individuais na composição de uma sociedade equilibrada. Para os
liberais, os homens devem ser livres para agir conforme bem entenderem,
pois só assim é possível promover a eficaz satisfação de suas necessidades.
Apesar de estar presente no pensamento de homens de alguns países
desde meados de século XVII, a teoria liberal é consistentemente
formulada por Adam Smith no século XVIII, onde é apresentada a idéia
de que cada um buscando o melhor para si estará promovendo o progresso
da coletividade, fenômeno ao qual o autor define como controlado
por uma "mão invisível". É comum reduzir-se o paradigma liberal
a célebre frase "laissez-faire, laissez-passer" (deixe fazer, deixe
passar) tão utilizada pela burguesia comercial, mas o liberalismo
tem implicações que ultrapassam esse princípio. A origem do liberalismo
está ligada ao desejo de certos homens em limitar a interferência
da Igreja e principalmente do Estado nas suas vidas e negócios particulares.
Entre os séculos XVI e XVIII na Europa, os governantes (reis ou
imperadores) freqüentemente criavam taxas alfandegárias, impostos
e leis segundo seus critérios exclusivos, que invariavelmente prejudicavam
tanto as camadas mais pobres quanto as mais enriquecidas da população.
Depois de confrontos muitas vezes violentos entre os liberais e
o imperador, os primeiros conseguem impor restrições para ação governamental,
através da elaboração de um só corpo de leis válidos para todos,
sem exceção, e as leis passam a ter de ser aprovadas por um conjunto
de homens representantes de setores da sociedade antes de serem
aplicadas. Esta é a gênese do Estado Democrático Liberal, que com
sua divisão tripartite dos poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário)
é modelo básico ainda adotado pelos Estados contemporâneos. Uma
de suas características principais é justamente respeitar e garantir
as liberdades (direitos) de cada um de seus integrantes. No entanto
as divergências entre o Estado e os adeptos do liberalismo voltam
a ocorrer no início desse século, principalmente após o término
da primeira guerra mundial. A razão para esses novos confrontos
(agora não mais violentos, mas apenas no campo ideológico) continua
sendo a excessiva intervenção estatal em setores controlados pela
iniciativa particular. Mas se antes essa intervenção era resultado
de decisões arbitrárias de um imperador, agora ela é uma conseqüência
da ampliação da participação política às camadas menos favorecidas,
que passam a cobrar do Estado medidas que elevassem suas condições
de vida, como investimentos em saúde, moradia e educação (até então
estes bens e serviços eram produzidos exclusivamente por organizações
privadas). Outros fatores que influenciaram o aumento do campo de
ação estatal foram a destruição material e a crise econômica provocadas
pela guerra. Naquela época não havia nenhum empreendedor particular
que tivesse recursos suficientes para arcar com a reconstrução dos
países arrasados, bem como reanimar a sua produção, sendo preciso
que o próprio Estado tornasse empresário e financiasse o funcionamento
de muitas companhias, como as de energia elétrica, mineração e navegação,
além de fornecer serviços como correios, esgotos, hospitais e escolas.
Naquela época alguns teóricos liberais já diziam que a ação empresarial
do Estado estava fadada ao fracasso, por exigir decisões ágeis incompatíveis
com sua organização interna, mas principalmente por tender a formação
de monopólios e eliminação da concorrência, esta última tida pelos
liberais como vital para a sociedade. Hoje em dia tanto essas previsões
como o próprio liberalismo ganham novos impulsos, quando detectamos
países onde as empresas públicas estão falidas e prestes a serem
vendidas para a iniciativa privada (privatização), além de serem
constantes as pressões vindas da própria população e de outros países
para a redução de tarifas de importação e exportação, para incentivar
o livre comércio e a concorrência entre as empresas.
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METODOLOGIA
Se o estabelecimento de um objeto é o primeiro passo para a realização
de uma pesquisa científica, a escolha de uma metodologia é o passo
seguinte. Não só a Sociologia, mas todas as ciências têm métodos
próprios. Por exemplo, um geólogo escolhe uma caverna, cuja constituição
pretende estudar. Para isso terá que recolher amostras das rochas
que ali se encontrarem, e analisá-las em um laboratório. Estão aqui
colocados os três momentos básicos de uma pesquisa: escolha do objeto
(caverna), determinação do aspecto desse objeto a ser observado
(constituição de suas rochas) e a coleta e análise dos dados (amostras
e laboratório). A metodologia corresponde exatamente a esta última
etapa (coleta e análise). É preciso ainda ressaltar a importância
da segunda etapa: dentro do objeto "caverna" existem vários aspectos
ou "recortes" que podem estudados: sua idade, seu potencial econômico
para mineração, os seres vivos que ali habitam. Para cada um desses
"recortes" seria utilizada uma metodologia diferente. A metodologia
consiste desta forma no procedimento de captação das informações
sobre o "recorte" do objeto alvo da pesquisa, bem como na escolha
da linha de raciocínio que vai ser utilizada para refletir sobre
essas informações. Mas estas informações não precisam ser sempre
empíricas, isto é, existentes no mundo real. Elas podem também ser
teóricas, como observações já feitas por outros cientistas sobre
o mesmo objeto. A coleta de amostras implica em uma metodologia
empírica, a escolha de uma linha de raciocínio exige uma metodologia
teórica. Quando um objeto apresenta um número muito elevado de informações
disponíveis, certamente a metodologia determinará o resultado da
pesquisa, pois é através dela que se seleciona quais são os pontos
relevantes para análise. Assim uma pesquisa que apresente falhas
metodológicas levará a conclusões incompletas quando não erradas.
Por outro lado, através da metodologia é possível manipular os resultados
da pesquisa de acordo com a expectativa de quem a realiza, exatamente
pela possibilidade de escolha arbitrária das amostras e da linha
de análise. Os problemas do estabelecimento de uma metodologia podem
ser ilustrados pelo seguinte aforismo: "os números não mentem, mas
os mentirosos brincam com números". Neste caso, a brincadeira é
a metodologia. A opção por uma metodologia é particularmente importante
nas ciências humanas, onde avaliações quanto a "certo" ou "errado"
são mais arriscadas devido a variedade de métodos existentes. Uma
conclusão sobre um objeto feita através de uma metodologia pode
ser diferente da conclusão de outra, sem que nenhuma esteja errada.
Deve-se a essa possibilidade de múltiplas interpretações e à necessidade
de se compreender cada vez mais completamente um objeto, o empenho
das ciências humanas em promover pesquisas multidisciplinares, isto
é, que envolvam diversas ciências e seus respectivos métodos de
análise. Freqüentemente são encontrados trabalhando juntos psicólogos
e sociólogos, historiadores e antropólogos, economistas e geógrafos,
entre diversas outras combinações de cientistas. É preciso ter claro
que entender o resultado de uma pesquisa passa por entender como
ela foi realizada e quais os métodos que foram utilizados nela.
Por isso é necessário que o autor, antes de apresentar a pesquisa
propriamente dita, explicite qual o ponto-de-vista que orientou
seu trabalho. Apenas considerando o ambiente em que o conhecimento
é produzido é que o interlocutor poderá julgar válidas ou não as
suas conclusões. O autor de uma pesquisa científica pode ser considerado
tendencioso quanto aos seus apontamentos finais, mas não pode nunca
ser omisso e deixar de apresentar seus métodos.
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MOBILIDADE SOCIAL
A mobilidade social é uma das características mais importantes das
sociedades contemporâneas, e pode ser entendida como a alteração
nas condições em que o indivíduo se relaciona com os outros e com
a sociedade como um todo. Foi identificada principalmente com a
possibilidade de ascensão na estratificação da sociedade, fenômeno
que sem dúvida é potencializado a partir da Idade Média, quando
ocorre a complexização da atividade econômica. Não é possível observar
mobilidade nas sociedades mais antigas como por exemplo o Egito
dos faraós, onde a justificação religiosa da organização social
dividia-a praticamente em três partes: o faraó e sua corte, os sacerdotes
religiosos e o restante da população. Tal configuração impedia que
integrantes de uma camada pudessem passar para outra, o que faz
com que classifiquemos esse tipo de sociedade como estamentária.
Outro exemplo claro de sociedade estamentária é a sociedade feudal,
composta basicamente pelo senhor e sua família, pelos servos e pelos
sacerdotes. A mobilidade social surge acompanhada do desenvolvimento
das atividades profissionais e da educação. Considerando que a partir
de um certo momento a profissão passa a ser a principal ocupação
de um indivíduo, a maior ou menor especialização de sua atividade
e a maior ou menor qualidade de seu trabalho influenciam para que
a participação deste indivíduo na sociedade seja vista com proporcional
grau de importância. Nesse ponto a mobilidade pode ser vista como
um reflexo da divisão do trabalho. Mas difusão da educação fundamental
e a livre circulação de informações são outros fatores essenciais,
na medida em que permite aos indivíduos melhorar sua atividade através
da aquisição de novos conhecimentos. De maneira geral identificamos
três causa para a mobilidade. A primeira refere-se a mudança de
status, e pode ser entendida como mudança no estilo de vida de uma
pessoa, resultado da alteração na posição em que ela ocupa na sua
sociedade. Um bom exemplo de mudança de status é o de um médico
que se muda da cidade grande para o campo: apesar de continuar exercendo
a mesma atividade, a pequena quantidade de médicos naquela localidade
faz com que sua importância cresça. Se na cidade ele era visto como
uma categoria média, no campo ele muitas vezes pode se tornar um
integrante da elite. Outro causa de mudança diz respeito a modificação
na situação de classe de um indivíduo. Lembrando que a classe é
um conceito iminentemente econômico, pode-se entender uma mudança
de classe como qualquer alteração na renda de uma pessoa, seja através
de uma promoção no emprego, um aumento salarial ou uma herança.
Todos estes exemplos transformam suas possibilidades aquisitivas
frente ao mercado, que é o determinador das classes sociais. A última
causa de mobilidade social é aquele realizado pela alteração do
poder de um indivíduo. Sem mudar de cidade ou receber um aumento,
um indivíduo pode aumentar seu poder, por exemplo, ao assumir qualquer
cargo representativo. Ao participar da administração de uma associação
de moradores, de um sindicato ou de um órgão público, o indivíduo
adquire poder sobre as pessoas que integram aquela organização,
pois obtém recursos (ajudantes, equipamentos) que antes não estavam
sob seu controle. É importante deixar claro que na maioria das vezes
estas causas não são únicas, mas encontram-se combinadas umas as
outras. Certamente no exemplo do médico ocorrem também alterações
na sua classe e no seu poder dentro daquela localidade. Outro aspecto
que deve ser ressaltado: a mobilidade social apresenta uma característica
dialética ou contraditória. Quando alguns indivíduos ascendem socialmente,
outros que não melhoram sua performance são ultrapassados, deixados
para trás. Portanto em uma sociedade que apresente mobilidade, muitas
vezes permanecer onde está significa retroceder em seu padrão de
vida.
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MUDANÇA SOCIAL
Esta é certamente uma das questões que preocupou os pensadores sociais
de todos os tempos, sejam eles filósofos, historiadores, sociólogos
ou antropólogos. Muitos deles construíram teorias que tentavam explicar
a interação da sociedade e seus componentes em momentos de transformação,
mas raramente sob as mesmas perspectivas, e quase nunca com os mesmos
conceitos. A complexidade e a diversidade dos grupos humanos existentes
acaba reduzindo as possibilidades de generalizações, e portanto
diminuindo a eficácia e validade da teoria. Freqüentemente isso
levou os cientistas a procurar enfatizar a influência de apenas
um aspecto da sociedade, limitando-o em um certo espaço e por um
determinado período de tempo. Alguns autores sustentaram que a sociedade
muda sempre para melhor, sendo por isso mesmo chamados de positivistas.
Para eles as inovações tecnológica e científica têm participação
fundamental no processo de mudança, principalmente ao serem difundidas
em entre as populações de diversos territórios. Weber por sua vez,
aponta a importância de mudanças éticas e morais na transformação
social. Procura demonstrar sua idéia na argumentação sobre a difusão
da mentalidade capitalista através da valorização do trabalho pelos
cultos protestantes (reformados), e a conseqüente passagem da sociedade
tradicional (agrária, artesanal e comercial) para a sociedade industrial.
Para Marx e todos os outros intelectuais de perspectiva dialética
(como Tönnies), a mudança é resultado de "contradições" entre o
comportamento e a mentalidade humana, sendo que na teoria de Marx
essas contradições assumem sua maior intensidade na esfera econômica,
entre a força de trabalho e o capital. Essas três correntes apresentam
outras visões diferentes sobre o processo de mudança. Se para positivistas
ela é sempre sinal de progresso, para pensadores dialéticos ela
também pode representar retrocessos e prejuízos para o bem-estar
da maioria. Alguns acham-na preferivelmente sob a forma de acontecimentos
graduais e interligados, outros defendem a presença de rupturas,
de divisões claras entre o presente e o passado. Os sociólogos mais
recentes incorporaram a tendência iniciada com Weber de não atribuir
uma única direção para a mudança, nem tentar captá-la em sua totalidade.
Eles aceitam a fragmentação do conhecimento social e sua dependência
do ponto-de-vista do observador. Desta ótica grandes avanços tecnológicos,
como a criação de computadores mais rápidos, causa efeitos imediatos
no sistema econômico, levando a falência diversas empresas, e no
entanto leva anos para ser totalmente assimilado pelas famílias,
ou mesmo chegar às escolas. Os conflitos, indesejáveis para positivistas
e muita vezes necessários para dialéticos, seriam nesse caso inevitáveis,
e por isso mesmo normais e superáveis. Já sociólogos como Durkheim,
Parsons e Merton não se preocuparam tanto em explicar momentos de
transformação, geralmente se recusando a considerar os conflitos
em seus universos de análise. No primeiro caso esta é uma conseqüência
do seu pressuposto de que a sociedade leva a ordem, a partir do
qual desenvolve sua idéia de coerção social. Para os dois últimos,
a mudança escapa-lhes a observação, uma vez que sua teoria é sustentada
quase totalmente em análises ex post facto, isto é, depois do ocorrido.
A verdade é que nas sociedades atuais as velocidades das mudanças
são cada vez maiores, tornando claro o seu caráter de vir-a-ser.
Em outras palavras, a sociedade seria uma contínua transformação,
sem um objetivo pré-fixado. Os homens atribuiriam as sociedades
uma estrutura fixa apenas para que possa ser captada, entendida
e respeitada por eles, e transmitida às próximas gerações. E o processo
de mudança só poderia ser explicado dentro da própria sociedade
em que ele ocorre.
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NECESSIDADES
Todo ser vivo apresenta necessidades que correspondem a sua dependência
para com o meio externo. Ele busca a sua satisfação através da obtenção
nesse meio de tudo que lhe é preciso para continuar vivendo. Quando
esse ser vivo não se encontra isolado, mas divide o mesmo ambiente
com outros seres, as condições em que ele satisfaz essas necessidades
dependem da quantidade de bens oferecidos pela natureza. Enquanto
houver abundância, isto é, os bens forem suficientes para todos,
haverá uma convivência equilibrada, sem confrontos ou disputas pela
sua obtenção. Mas quando houver escassez, e o número de bens oferecidos
for inferior ao necessário para satisfazer a todos, os seres competirão
para adquiri-los, podendo daí surgir a mais variada gama de conflitos.
Observa-se que na convivência entre os homens sempre predominou
a escassez. É muito difícil encontrar situações em que os homens
tivessem as condições de satisfazer sozinhos a todas as suas necessidades,
a não ser em construções ideais como o "estado de natureza" acima
descrito resumidamente, construções estas utilizadas pelos contratualistas
como Hobbes e Locke para explicar a gênese do Estado. É ainda amplamente
conhecida a explicação de Malthus para a escassez, segundo a qual
a produção de alimentos cresceria numa progressão aritmética (P.
A.) enquanto que a população cresceria numa progressão geométrica
(P. G.). Os argumentos originalmente utilizados para mostrar como
foi superada a instabilidade do "estado de natureza" são os mesmos
que, desenvolvidos, servem hoje para refutar a idéia de Malthus,
e podem ser resumidos a organização da vida em sociedade. No primeiro
caso, esta organização significa o estabelecimento simultâneo pelos
indivíduos de limites de ação em prol da convivência pacífica, ou
seja, a adoção de ideais e valores comuns segundo os quais eles
passam a se orientar. No segundo caso trata-se da organização da
produção para o aumento de sua eficiência, através da distribuição
de atividades, de seus aprimoramentos e especializações, além da
óbvia introdução de maquinaria. Ou em outras palavras, a divisão
do trabalho e o advento da sociedade industrial. Disso conclui-se
que muitas das necessidades humanas são forjadas pela sociedade,
uma vez que cada um não é mais pessoalmente responsável pela própria
manutenção, mas dependendo agora de que os outros respeitem os "acordos"
e cumpram a sua parte. Para demonstrar de outra forma que as necessidades
são determinadas socialmente basta compará-las de uma sociedade
a outra. No Ocidente as mulheres não precisam andar com parte do
rosto encoberto por um véu como nas nações islâmicas. Em contrapartida
nenhuma mulher muçulmana precisa trabalhar, o que ocorre em muitos
outros países. São contrastes que provém de diferentes padrões de
socialização. Com o desenvolvimento das sociedades, algumas necessidades
podem também passar a exprimir uma relação de poder. Isto é explícito
no caso da necessidade da apresentação de documentos e de pagamento
de impostos para os mais diversos fins, o que significa uma sujeição
de comportamento aos poderes do Estado. Isso para não falar na necessidade
de ler jornais ou assistir a noticiários (para não falar em revistas
e novelas), o que sem dúvida implica em aceitar a capacidade de
seus realizadores em selecionar as informações de que se precisa.
Estes fatos deixam claro que não estamos tratando de necessidades
naturais. Mas elas também não são falsas. São reais e advém exatamente
da condição de associação em que o homem se encontra. Alguns autores
chegam a fazer algumas distinções, apontando entre outras, necessidades
morais como o casamento ou a reparação do prestígio perdido através
de uma calúnia, e necessidades econômicas como o trabalho.
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