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DICIONÁRIO POLÍTICO
Estes verbetes foram pesquisados por Maurício Assumpção Moya, Bacharel em Ciências Sociais e Mestre em Ciência Política pela Universidade de São Paulo.
Se você tem dúvidas ou não encontrou algum verbete aqui, escreva para
agora@agoranet.org.br

A B C D E F G I L M N O P R S T U V


ORGANIZAÇÃO

Havia uma indústria subsidiária de uma grande empresa situada no interior dos Estados Unidos que mantinha índices de produtividade inferiores à média. Interessada em saber as causas desse fenômeno, seus diretores contrataram uma série de economistas, administradores e psicólogos, sem que nenhum deles conseguisse chegar a conclusões significativas. Por fim, alguns desses profissionais sugeriram que as respostas fossem buscadas nas relações da empresa com a cidade, através da participação de seus empregados no seu cotidiano. Foi então indicado aos diretores que procurassem auxílio em uma disciplina recém-implantada em algumas universidades americanas, e que vinha obtendo bons resultados na análise de situações desse tipo. A disciplina em questão era a Sociologia, que naquele país se desenvolvia grandemente apoiada na "teoria das organizações" e na observação da interação de grupos como a família, a igreja e a empresa. A teoria das organizações trouxe várias contribuições para a Sociologia, principalmente para a análise de grupos reduzidos em que se apoia a vertente microssociológica. Entre elas estão a noção de sistema social, enquanto um conjunto de funções interligadas e distribuídas entre diversos indivíduos. Esses indivíduos, na medida em que incorporam algumas daquelas funções, acabam desempenhando papéis (comportamentos com a mesma referência) dentro daquele grupo, agora entendido sob a ótica sistêmica. A distribuição das funções não é aleatória, seguindo uma certa ordem para que sejam atingidos os objetivos que justificam a organização. O pressuposto da ordem interna das organizações levou alguns sociólogos americanos a desenvolver também a idéia de controle social, como as formas que a organização tem de induzir seus membros ao desempenho desejado, e consequentemente garantir seu bom funcionamento. As críticas a teoria das organizações são baseadas principalmente na veracidade desse pressuposto da ordem. Com o controle social, há a tendência de voltar a comparar a sociedade com um organismo, uma vez que ambos teriam amplo domínio sobre as suas partes componentes. Mas a sociedade humana está constantemente sofrendo conflitos internos, ela nem sempre mantém coerência entre suas partes. Um organismo não vive muito tempo com órgãos que estão se prejudicando. As sociedades no entanto passam pelos mais diversos conflitos e não só se mantém como se transformam. É por isso que a teoria das organizações vai ter dificuldades quando for interpretar a mudança social com seus conceitos de ordem, sistema e controle. Hoje o uso do termo organização flexibilizou-se e não segue mais todas as argumentações acima, podendo ser utilizado em diversos grupos que apresentem algumas de suas características básicas, como a existência de estrutura interna e alguma ordenação segundo padrões comuns.
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PAPEL
Nas ciências sociais, a idéia de papel é muito semelhante ao empregado no teatro: é uma conduta, uma parte da personalidade do ator que se desenvolve conforme um padrão prescrito, sempre de acordo com as expectativas das outras pessoas envolvidas. No caso do teatro este padrão se refere ao roteiro da peça, enquanto que na sociedade ele diz respeito às normas comuns que regem o comportamento em cada um dos sistemas que a compõe. Nesse sentido, o papel, e não a própria pessoa, foi entendido como a unidade básica dos sistemas sociais. Em cada sistema podemos notar modalidades de interação que são compostas por papéis: no sistema religioso encontramos os papéis de sacerdotes e de fiéis; o sistema familiar é constituído pelos papéis de pai, de mãe e de filhos. O papel é o comportamento que assumimos quando nos relacionamos com outras pessoas nas mais diversas situações e que é pelo menos em parte determinado pela própria situação. Incorporamos o papel de filho, de irmão ou de sobrinho quando vamos nos relacionar em família. Para cada setor da sociedade em que há organização e distribuição de funções são encontrados papéis. A escola ou a empresa, a família ou a igreja, todas são constituídas por papéis que garantem o seu funcionamento. Há portanto um limite para cada papel, que dura enquanto durar a participação no grupo a que ele se refere. Só chamamos os jovens de alunos e exigimos deles que estudem (esta é a sua função) enquanto estes estiverem na escola. Um operário só acata as ordens do supervisor enquanto ambos estiverem na fábrica. Uma pessoa pode ter diversos papéis, um para cada ambiente do qual faz parte. No escritório ela é uma secretária, em casa ela é uma mãe, no clube ela é uma sócia. Mas esses papéis não devem se misturar. Se um outro sócio do mesmo clube vai ao escritório, ele não deverá ser tratado como sócio, mas como cliente. Por outro lado, é claro que o mesmo papel pode ser atribuído a diversas pessoas: existem muitos alunos, professores, policiais, etc. Os papéis implicam em responsabilidade, mas também em direitos. Um filho deve respeitar qualquer decisão do pai, mas em contrapartida pode pedir para que este o leve a uma festa ou dê-lhe roupas novas. O aluno deve estudar a lição proposta pelo professor, e por outro lado pode cobrar-lhe aulas mais claras. Podem ocorrer variações entre a performance ideal e o desempenho real de um papel. Quanto maior a distância entre eles maior a possibilidade de prejuízos para o sistema que eles compõe. É o caso de um árbitro de uma partida de futebol que deixa de marcar infrações ou permite que jogadores adversários fiquem se provocando: provavelmente ele perderá o controle do jogo, que poderá se tornar violento, e onde os times não mais estarão preocupados em fazer gols mas em intimidar um ao outro. O papel não deve ser confundido com o status. O primeiro é o desempenho de uma função pré-determinada, o segundo é uma posição dentro da estrutura social. O papel pode eventualmente servir de fundamento para a atribuição de um status, mas este uma vez alcançado não precisa daquele para subsistir. Um advogado que tenha ganho causas consideradas difíceis manterá seu prestígio mesmo que se aposente e não mais exerça a atividade que o consagrou, permanecendo na mesma posição frente às outras pessoas.
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PARTIDOS
Partido pode ser definido como uma organização cuja função principal é a satisfação dos interesses comuns de seus membros. Mas se considerarmos que apesar da multiplicidade de desejos humanos, eles podem em alguns casos ser compartilhados por um grande número de homens, e que esses homens se unem para colocá-las em prática, cada sociedade pode ser interpretada como formada por um imenso partido. Na verdade a definição acima é boa, mas ficará mais completa se acrescentarmos a ela que a satisfação dos interesses comuns passa pela obtenção do poder (ou parte dele) em uma sociedade. A idéia da partido pressupõe portanto a existência de algum tipo de organização humana anterior a ele, cujas relações entre seus integrantes já se encontrem estabilizadas ao ponto de apresentarem estruturas de poder, ou seja, hierarquizações de cargos ou papéis que regulem seu funcionamento interno. Essas hierarquizações seguem a critérios, por exemplo, econômicos ou religiosos. Os partidos são os grupos que procuram alcançar os postos mais altos dentro dessas hierarquias, para de lá promoverem as vontades comuns de seus membros. Assim podemos encontrar partidos em quaisquer disputas pelo poder, seja em associações de bairro, clubes esportivos, sindicatos, empresas (só onde a diretoria é escolhida através de eleições) e mesmo em partidos políticos (facções ou alas dentro de um partido). Existirão partidos em qualquer lugar que existam estruturas de dominação. Ainda sob este ponto-de-vista, é possível classificar os partidos quanto a sua maior ou menor abrangência sobre uma sociedade: há partidos locais, que têm um alcance restrito, nunca maior que uma cidade (normalmente são associações de moradores ou sociedades beneficentes com influência política); partidos regionais, com alcance um pouco maior (em geral grupos organizados em torno de aspectos culturais de uma parte da população, como o Partido Verde, que não tem filiados em diversos estados brasileiros); partidos nacionais, que atuam em todo o país (são os que aparecem com mais freqüência nos meios de comunicação, justamente por terem a maior organização interna); partidos multinacionais, cujos interesses perseguidos pelos seus integrantes ultrapassam os limites territoriais do país (como o caso dos partidos comunistas que se espalharam pelo mundo em meados deste século, e que mantinham algum intercâmbio). Podemos falar ainda de partidos permanentes e temporários, conforme a duração da união de seus membros: existem partidos que se desintegram depois de alcançados os seus objetivos originais, e outros que se fortalecem com isso. Há a possibilidade de classificarmos os países quanto ao número de partidos que ele apresenta. Para isso é preciso estabelecer qual das categorias acima vamos utilizar. Todo país apresenta inúmeros partidos locais, assim como temporários. Considerando apenas seus partidos nacionais permanentes, os países podem ser multipartidários (também chamados pluripartidários) como Brasil, Argentina e Itália, bipartidários como Inglaterra e Estados Unidos, ou de partido único (monopartidários) como o México e a ex-U.R.S.S.. Alguns autores tentaram captar reflexos da estrutura da sociedade na maneira como ela organiza seus partidos. Apontaram que os países multipartidários apresentam uma diversidade muito grande de opiniões, o que torna a tolerância maior e o consenso menos freqüente. A população dos países bipartidários enfatiza apenas a distinção entre governo e oposição, fazendo com que as maiores discussões ocorram dentro dos partidos e não entre eles, conduzindo a acordos com mais freqüência. Já os países de partido único apresentariam um grupo político muito organizado, que concentraria os políticos de maior destaque e jogaria as disputas para o interior da organização. através de partidos locais e regionais. A partir dessas observações os cientistas tentaram relacionar o número de partidos à governabilidade (facilidade em governar) de um país, tarefa realizada sem muito sucesso devido à existência de diversas outras variáveis que deveriam ser consideradas.
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PODER
Num sentido geral, o poder foi definido como a possibilidade de se obter algo, de se alcançar um objetivo. Quanto maiores forem as chances de chegar ao resultado pretendido, maior o poder e vice-versa. Pode ser entendido também como a capacidade de fazer com que algo aconteça conforme o esperado. É esta segunda definição que ganha algumas peculiaridades ao ser transportada para a Sociologia. Nesta disciplina, o poder está relacionado ao acúmulo de recursos e a capacidade de usá-los, que permitem a um homem determinar o(s) comportamento(s) de outro(s). Ter poder sobre um homem é ter a capacidade de fazê-lo agir de acordo com um objetivo pré-concebido. A partir desta ótica, numa sociedade os homens não são apenas os sujeitos, mas também os objetos do poder. Para os cientistas sociais, o poder não tem apenas o sentido do comando, mas também o da obediência. Desta forma, o poder implica em integração e em agregação: o poder é mesmo uma relação social. Não se apresenta como um jogo de soma zero (os ganhos de um lado são iguais às perdas do outro), pois muitas vezes proporciona benefícios tanto para quem manda quanto para quem obedece. Foi mencionada acima a existência de recursos de poder. Eles são os modos de exercício do poder, as formas como ele se estabelece entre as partes envolvidas. Podem ser, entre outros, a persuasão, a ameaça, a força e a legitimidade. Nessas três primeiras formas, o subordinado é coagido, induzido a se comportar de determinada maneira, às vezes contra a própria vontade. Já na última forma isso não ocorre, sendo exatamente esta a razão pela qual é particularmente importante na análise sociológica: ela significa uma obediência espontânea e sem atritos. A legitimidade é característica de uma relação de poder que tornou-se necessária, e que não pode ser confrontada ou eliminada sem prejuízo para a organização da sociedade. É através da legitimidade que as relações de poder vão se estabilizando, podendo dar origem a relações de dominação duráveis e levar à constituição de autoridades. A dominação é uma relação de poder que se orienta por algumas regras razoavelmente estáveis (mesmo que não legítima, mantida pela força). Já a autoridade é a materialização de uma relação de dominação legítima em uma instituição ou pessoa que a represente. É importante deixar claro que a relação de dominação e as autoridades não desprezam o uso da força, nem pretendem eliminá-la: ela apenas não é essencial para a manutenção de seu poder. O poder não é único em uma sociedade, aparecendo dividido conforme as situações observadas. É possível estabelecer diversas categorias de poder de acordo com os papéis envolvidos, categorias estas que não se misturam. É o caso do poder do pai sobre o filho, do professor para o aluno, do Estado para os cidadãos: cada um desses casos apresenta diferentes combinações de persuasão, força e legitimidade, que limitam a utilização do poder ao período e local em que os papéis se desenvolvem. Assim, o professor não tem poder sobre o aluno quando este estiver em casa ou em férias. Já o pai terá poder sobre o filho enquanto este não trabalhar e depender dele para sobreviver (é claro que isto pode variar conforme o grau de respeito/legitimidade adquirido pelo pai ao longo da vida). O Estado não pode interferir em nossas opções profissionais ou de lazer, limitando-se a fazer-nos cumprir a lei.
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PROCESSO
O conceito de processo dentro da Sociologia é formulado para contrapor-se a uma teoria estática que enfatizasse exageradamente a importância da estrutura social nos relações entre os indivíduos. A idéia de processo aplicada à sociedade traz implícita a noção de transformação constante, ou se preferirmos, de dinâmica social. Os processos não se resumem a uma relação de causa e efeito, mas sim de um intercâmbio permanente entre diversas partes. Assim, é possível entender as modificações que ocorrem em um sistema através da compreensão do processo de interação entre seus elementos componentes. Os processos são portanto acontecimentos que fogem de uma ordem linear. São, antes disso, sustentados por uma confluência de fatores que podem não estar diretamente ligados. Falamos que a anomia (ausência de regras, ruptura dos laços que unem as pessoas) é resultado de um processo para o qual podem contribuir o egoísmo, uma crise econômica, a participação em guerras, os conflitos internos. A própria guerra entre duas nações é o ponto culminante de um processo de acirramento das suas rivalidades, que pode ter origem simultânea em disputas territoriais (por recursos naturais, por mercados consumidores), confronto de valores (racismo, anti-semitismo) ou até na necessidade de unificar um povo em torno de um ideal comum (como na unificação da Alemanha, promovida por Bismarck). desenvolvendo-se em fluxo e refluxo. As idéias centrais do processo social são então multiplicidade (de origens e desdobramentos), simultaneidade e realimentação. A educação é um dos processos de socialização: tem origem tanto na transmissão dos princípios sobre os quais a sociedade se sustenta (solidariedade, paz, liberdade) quanto em desejos e necessidades individuais (caçar, desenhar, enriquecer). As eleições são um processo de escolha de governantes, para onde convergem inúmeras preferências que têm as mais diversas origens. Mas as eleições não se resumem ao dia da votação: começam com o lançamento dos candidatos, seguem as suas campanhas e continuam até a apuração do último voto. Alguns processos podem chegar em momentos de ruptura, a partir do qual se estabelece outra situação diferente da anterior. É o caso das guerras ou mesmo das eleições: podemos perceber de maneira razoavelmente clara onde eles começam e onde eles terminam. Já outros processos são contínuos, sem limites evidentes, como a socialização. Isto não significa em absoluto que eles sejam constantes ou sempre os mesmos: sem dúvida eles se transformam, através da própria realimentação.
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RELAÇÃO SOCIAL
Classifica-se como relação social toda e qualquer conduta de vários indivíduos em que a ação de um(uns) é determinada pela ação de outro(s). Em outras palavras, há relação social sempre que duas ou mais pessoas entram em contato e suas atitudes são referidas reciprocamente. Essa reciprocidade é a característica essencial da relação social: o comportamento que um indivíduo pretende adotar depende, em qualquer grau, do comportamento do(s) outro(s) indivíduo(s) no momento em que entram em contato. Assim, todas as ações de praticantes de esportes coletivos podem ser entendidas como relações sociais: um jogador se distancia de seu adversário para que um companheiro passe-lhe a bola, e este o faz porque pensa que o outro poderá fazer o mesmo mais adiante. Um sinal pedindo para o motorista do ônibus que se aproxima parar também é uma relação social: a pessoa que dá o sinal o faz porque sabe para onde o veículo se dirige, assim como o motorista pára porque sabe que a pessoa deseja subir. Mais que um comportamento determinado por outro, a relação social pode também ser resultado da expectativa de um comportamento. Isto é, uma pessoa age de certa maneira porque espera que a(s) outra(s) aja(m) conforme o desejado. Desta maneira, mesmo que o jogador não passe a bola, o deslocamento do outro continua sendo uma relação social, pois tal deslocamento continua sendo causado pela expectativa de receber o passe. Da mesma forma, ainda que o ônibus não pare, o sinal permanece sendo originado na esperança da atitude do motorista - a parada - sendo portanto suficiente para classificá-lo como uma relação social. Há ainda outra peculiaridade da relação social: ela não depende que o sentido das ações sejam compartilhados pelos participantes. A reciprocidade, a referência mútua da relação social não implica em que o significado da relação mantenha-se o mesmo para todos os envolvidos. Os indivíduos podem se relacionar socialmente também devido a motivos diferentes. Uma primeira pessoa convida outras duas para ir ao cinema: ambas aceitam o convite, mas apesar da atitude ter sido a mesma, a segunda decidiu ir porque desejava muito assistir a aquele filme, enquanto que a terceira só aceitou para continuar em companhia das outras duas, de quem gosta imensamente. O conteúdo da relação social portanto pode variar entre seus participantes, sem comprometer a reciprocidade que lhe é essencial. As relações sociais, uma vez que são compostas por ações sociais, podem ser submetidas a mesma classificação que estas: comunitárias (tradicionais e afetivas) e associativas (racionais com relação a valores e a fins). Segundo Weber, as relações comunitárias são aquelas que se baseiam em um "sentimento subjetivo", pois é impossível de medir-lhe exatamente a veracidade ou intensidade, "de pertencer ao mesmo grupo", isto é, na sensação de fazer parte de uma comunidade (uma família, uma vizinhança), de compartilhar idéias e princípios com outras pessoas. Já as relações associativas são aquelas que se sustentam "num ajuste ou numa união de interesses racionalmente motivados", ou em outras palavras, em um compromisso assumido consciente e intencionalmente pelas partes. São exemplos de relações associativas qualquer tipo de contrato ou de troca realizados espontaneamente. Como se observa, nas relações comunitárias há maior chance do significado ser o mesmo para os envolvidos que nas associativas. A grande maioria das relações sociais é constituída em parte por aspectos comunitários e em parte por aspectos associativos. No exemplo do cinema, a terceira pessoa está mais próxima de uma relação comunitária (só vai ao cinema porque quer estar com os amigos), a segunda de uma relação associativa (vai ao cinema porque quer exatamente assistir a aquele filme, o que possivelmente faria em companhia de qualquer pessoa que o convidasse), enquanto que a terceira provavelmente é uma combinação das duas (faz o convite porque quer ir ver o filme com amigos).
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SISTEMA
A definição mais simples de sistema é a de um conjunto de elementos interligados de tal forma que apresentam-se como mutuamente dependentes, devido ao fato de que as funções que cada um desses elementos desempenham só fazem sentido enquanto elas forem consideradas simultaneamente. Esta interdependência entre as partes de um sistema confere a ele outra característica: uma alteração em uma de suas partes integrantes provoca efeitos em todas as outras, e portanto em todo o conjunto. Desta maneira, o conceito encontra aplicação em diversas ciências, como a Biologia (sistema respiratório, digestivo, ecossistema), a Física (sistema solar, sistema elétrico) e a Matemática (sistema de equações). Em Sociologia, é freqüente a interpretação da sociedade como um sistema social, um conjunto de relações entre os homens . De acordo com sua maior ou menor complexidade, é possível entender cada parte de um sistema como um subsistema, como um outro conjunto subordinado ao primeiro. Esta possibilidade de divisão de um sistema em conjuntos menores é particularmente importante no estudo das sociedades, onde observa-se a existência de diferentes ordens e organizações que contribuem para a sua sustentação. Podemos falar, entre outros, de sistemas econômicos, políticos, religiosos ou educacionais, sendo cada um deles um conjunto de normas que regulamentam a participação dos indivíduos em cada um destes setores da sociedade. Na medida em que essas normas vão se enraizando no comportamento individual, elas podem se tornar instituições. Estes sistemas, apesar de serem definidos separadamente, fazem parte da mesma organização e encontram-se interligados, onde, por exemplo, uma decisão política pode alterar algumas relações econômicas, ou mudanças econômicas afetem o conteúdo e a finalidade da educação. São portanto ordens que se unem para formar um sistema maior, daí podendo ser classificadas como subsistemas. De modo similar pode ser entendida a família: é uma organização com partes interdependentes, e que se relaciona com outras instituições, como a escola, a Igreja. A sociedade pode portanto ser dividida em inúmeros sistemas, conforme o ponto de vista do observador. Uma distinção importante que deve ser feita sobre os sistemas diz respeito a possibilidade destes de realizar trocas com o meio externo e ser por este influenciado. Sistemas sensíveis a influência externa são chamados de sistemas abertos, enquanto que sistemas fechados são aqueles em que a interferência de fatores exteriores podem ser desprezadas. Sem sombra de dúvida, as sociedades humanas são sistemas abertos, cuja organização pode ser modificada pelo meio ambiente (o tamanho do território, o clima e a disponibilidade de recursos naturais certamente determinam a distribuição das pessoas naquele espaço, e as diferentes combinações daqueles fatores geram diferentes tipos de relação entre elas) e principalmente pelo contato com outras sociedades. Cada sociedade está em constante interação com outros sistemas sociais, internos ou externos a ela. A abordagem sistêmica da sociedade é bastante útil para introduzir os problemas do estudo das relações sociais, servindo de modelo para lidar com sua organização interna. Mas excetuando a idéia de que os grupos sociais, nos seus mais variados níveis, encontram-se organizados na forma de sistema, são poucas as deduções obtidas a partir dessa perspectiva que podem ser aplicadas de maneira geral as sociedades humanas. As infinitas diferenças qualitativas que existem de uma sociedade para outra não podem ser explicadas completamente apenas a partir de sua estrutura interna, sendo preciso considerar também se são iguais os canais de interação entre suas partes, além de procurar entender como e porque elas se modificam, sem interpretar toda conflito social como resultado de um descontrole da sociedade sobre seus integrantes.
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SOCIALISMO
A doutrina socialista tem origem no século XVIII, logo que consolidaram-se os efeitos da revolução industrial sobre as sociedades modernas. É uma ideologia que critica o liberalismo econômico, e vai contra as noções de que o mercado é o princípio organizador da atividade econômica, devendo portanto ser preservado a todo custo. Surge principalmente como forma de protesto contra as desigualdades provocadas pelo intenso processo de industrialização, e contra as péssimas condições de vida dos trabalhadores. Os socialistas observam, com justa razão, que são o mercado e a livre concorrência as principais fontes das desigualdades sociais. O socialismo propõe então limitar o alcance do mercado através de mecanismos reguladores, e defende sobretudo o planejamento da produção como a forma mais eficaz de distribuir a riqueza produzida entre todos os membros da sociedade. Esta é a principal preocupação da ideologia socialista: promover uma distribuição equilibrada de bens e de serviços, tornando-os acessíveis a toda a população. Equivale a idéia de socialização da produção. Havia ainda duas correntes de pensamento socialista. A primeira, da qual Marx faz parte, argumentava que o socialismo só seria possível se todas as nações praticassem-no de forma simultânea, caso contrário o fluxo financeiro e as trocas comerciais entre elas impediriam um planejamento equilibrado de suas provisões e necessidades. Justamente por tratar o socialismo como algo inalcançável sob as condições impostas, essa corrente foi chamada de utópica. Já a outra corrente acreditava na possibilidade de implementar o socialismo em poucos países, e então depois de estabilizado expandi-lo para outros. Para isso seria preciso a intervenção do Estado na economia, pois este seria a única força capaz de controlar a atividade dos empresários capitalistas em benefício de toda a população. Alguns países tentaram efetivamente implantar o socialismo, todos eles influenciados pelo sucesso obtido pela U.R.S.S. após sua pioneira Revolução Bolchevique em 1917, entre eles a China. Com o término da 2.ª Guerra Mundial, e sob a influência da mesma União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (da qual participavam mais de uma dezena de nações, incluindo a Rússia) muitos países do leste da Europa aderiram ao socialismo e sua planificação econômica, entre eles a Polônia, a Romênia, a Checoslováquia e parte da Alemanha (Alemanha Oriental). Para conter os riscos de interferência externa apontados pelos socialistas utópicos, era evitado todo o tipo de contato com países não-socialistas, que caso fosse realmente essencial seria regulamentado pelo Estado. A extrema interferência do Estado em todos os setores da economia levou alguns críticos a reduzir o socialismo, em suas manifestações reais, a uma espécie de "capitalismo de Estado". Outra questão importante sobre os países socialistas diz respeito a ampliação exagerada de suas burocracias, que com seus critérios extremamente técnicos e rígidos comprometiam a agilidade das decisões e por conseguinte de toda a economia. Os problemas burocráticos são apontados por muitos especialistas como uma das principais causas do fracasso dos regimes socialistas. Uma interpretação mais recente, realizada após a decomposição da União Soviética e a reunificação da Alemanha, apresenta o socialismo real como uma forma intensa de pré-capitalismo. Na argumentação de Kurz, o socialismo foi responsável pela transformação de sociedades predominantemente agrícolas (principalmente o caso da Rússia) em sociedades industriais. Ao longo de pouco mais de meio século ele promoveu nos países que o implementaram as mesmas modificações na estrutura econômica que demoraram mais de duzentos anos para se realizar no restante da Europa.
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SOCIALIZAÇÃO
São facilmente perceptíveis as diferenças de costumes que existem de uma sociedade para outra. Os primeiros pensadores sociais apontaram, com certa razão, que estes costumes são diferentes em parte por causa da própria diferença entre os meios físicos em que se encontram as sociedades: em um ambiente de clima frio, as pessoas usarão mais roupas e provavelmente ficarão menos tempo fora de suas casas; em um local com alimentos abundantes elas poderão trabalhar menos e não terão de competir por comida. Mas como explicar, através desta idéia de determinismo físico, que em certos lugares a manipulação da comida seja feita com dois pauzinhos, em outros com diversos talheres, e ainda em outros com as próprias mãos? Estas diferenças são resultados não da adaptação da sociedade ao meio, mas da adequação dos indivíduos à vida em sociedade. É a este processo de integração de cada pessoa aos costumes pré-existentes a ela que damos o nome da socialização. De maneira mais completa, define-se socialização como a internalização de idéias e valores estabelecidos coletivamente, e a assimilação de papéis e de comportamentos socialmente desejáveis. Significa portanto a incorporação de cada homem a uma identidade maior que a individual, no caso à sociedade. É importante associar de maneira correta a socialização à cultura: esta se encontra profundamente ligada a estrutura social, enquanto que a socialização pode ser resumida a transmissão de padrões culturais. O processo de socialização por excelência é a educação. Mas não somente aquela que adquirimos na escola, denominada de educação formal, e que consiste, entre outros conhecimentos, na língua e na história do próprio povo. Há uma outra educação, que aprendemos apenas no próprio convívio com as outras pessoas, e que corresponde a como devemos agir em momentos-chave da nossa vida. É a socialização através da família, dos amigos e até mesmo de desconhecidos. As famílias ensinam, a título de exemplo, quais das suas necessidades devem ser atendidas pelo pai e quais devem ser atendidas pela mãe. Com os amigos aprendemos os princípios da solidariedade, e a importância da prática de esportes. Com desconhecidos podemos aprender a aguardar a nossa vez em fila, sem atropelos, e a não falar alto em locais como o teatro ou a sala de aula. Outro exemplo claro é o caso de um homem que muda de país, e que tem de aprender o idioma e as normas da nova sociedade em que se encontra, isto é, os padrões segundo os quais seus membros se relacionam. Vista dessa maneira, a socialização pode ser interpretada como condicionadora das atitudes, e portanto como uma expressão da coerção social. Mas a socialização, justamente por se realizar de maneira difusa e fragmentada por diferentes processos, deixa alguns espaços de ação livres para a iniciativa individual espontânea, como a escolha dos amigos, do local onde se deseja morar ou da atividade que se quer exercer. Se existem diferentes processos de socialização, tanto entre sociedades quanto dentro de uma mesma, é possível atribuir a eles limites e graduações. A socialização na esfera econômica induz ao trabalho, mas não a que tipo de trabalho. Aprende-se a respeitar os mais velhos, mas nada impede a repreensão de um septuagenário que solte baforadas de charuto em alguém. Há a possibilidade de identificarmos indivíduos mais ou menos socializados, isto é, mais ou menos integrados aos padrões sociais. Uma pessoa pode ser um ótimo arquiteto, ao mesmo tempo que é alcoólatra. Uma pessoa pouco socializada não absorveu completamente os princípios que regem a sociedade, causando freqüentemente transtornos aos que estão a sua volta. Não por acaso é possível identificar no crime e nos seus praticantes o resultado de um baixo grau de socialização, e por conseguinte, indícios de anomia.
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SOCIEDADE INDUSTRIAL

A indústria em seu sentido mais resumido é a atividade de combinar recursos e empregar instrumentos para atingir determinado objetivo, atividade que exige algum esforço mas retorna com algum benefício. Assim é permitido qualificar como indústria mesmo as atividades artísticas como a pintura a escultura, ou ainda a agricultura. Em conseqüência disso é possível afirmar que todas as sociedades, passadas ou presentes, apresentam características industriais. São exemplos históricos de atividades industriais a construção das pirâmides no antigo império egípcio ou qualquer produção artesanal seja ela realizada na Grécia clássica, entre os romanos ou hoje em dia. Mas para fins de clareza vamos considerar aqui a indústria exclusivamente sob seu aspecto econômico, mas que também terá desdobramentos sociais. O que nos permite qualificar uma sociedade como industrial é a predominância em seu interior desse tipo de atividade econômica. Este fenômeno de intensificação da atividade industrial, que recebe o nome de industrialização, surge historicamente nas sociedades européias do século XVIII, a partir de onde se expande para outros locais e chega até os dias de hoje. As condições que permitem a expansão do processo de industrialização não são consensuais na sociologia, mas ele sempre aparece ligado ao capitalismo. Há autores que enfatizam os aspectos econômicos dessa ligação, e outros que privilegiam aspectos sociais. Em todo caso, a caracterização da sociedade industrial através do seu processo de estabelecimento se faz necessária. Nas sociedades industriais há a concentração das atividades de produção em grandes organizações empresariais, que tornam-se responsáveis por cada uma das etapas produtivas. Essa concentração está relacionada ao aumento da procura por bens proporcionado pelo comércio internacional. Além disso, durante a industrialização essas empresas valem-se de descobertas científicas e inovações técnicas para aumentar a sua produtividade (quantidade de produto sobre o tempo gasto para produzi-la). Acompanhando essas descobertas e inovações há um processo de crescente especialização profissional, em que os homens passam a desempenhar um número cada vez menor de atividades relacionadas à produção, executando-as de maneira cada vez mais eficiente. Uma última característica das sociedades industriais é a utilização maciça de recursos naturais, que levou alguns ecologistas radicais a classificar a industrialização como um processo de "predação da Terra pelo homem". Neste ponto pode-se concluir que continuará havendo industrialização enquanto houver aprimoramentos a serem feitos, ou seja, indefinidamente. Apesar de ser bastante plausível, esta suposição não nos garante a perpetuação da sociedade industrial. Como contraponto a esta idéia podemos tomar a conhecida classificação da economia de um país quanto às suas três grandes áreas de atividades: primária, em que se colocam a agricultura e a mineração; secundária, na qual está a indústria; e terciária, composta pelos serviços. Alguns países apresentam hoje a maior parte de sua população envolvida no setor terciário, o que foi suficiente para alguns pensadores iniciarem a discussão de uma sociedade pós-industrial, onde a multiplicação dos papéis seria um argumento fundamental.
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SOCIOLOGIA
Um dos maiores nomes da sociologia brasileira, Florestan Fernandes, definiu-a como "a ciência que tem por objeto estudar a interação social dos seres vivos nos diferentes níveis de organização da vida". Esta definição pode causar espanto, por estender a aplicação da sociologia aos reconhecidos casos de comportamento coletivo em insetos (abelhas e formigas), por exemplo. Mas a abrangência dessa definição pode ser creditada ao fato de que deve-se considerar as contribuições da Sociobiologia e de suas analogias entre as sociedades humanas a as de outros organismos vivos, e a eles próprios, que fazem parte da origem da ciência sociológica. Mas esta definição também apresenta um problema: ela não é de todo clara, talvez intencionalmente. Uma palavra-chave fica sem o devido esclarecimento: o que podemos considerar como "social" ? Como identificar essa qualidade em manifestações concretas ? A limitação clara do seu universo de estudos foi e talvez continue sendo o principal obstáculo ao reconhecimento dessa ciência. Se hoje é razoavelmente seguro afirmar que existem códigos de referência comuns estabelecidos não pela vontade individual, mas pela própria situação de convivência em grupo, que determinam parte do comportamento e da própria maneira de pensar de cada pessoa, isto só foi possível depois da exposição de longas teorias acompanhadas de incontestáveis exemplos reais. Superada a questão da existência de situações que não se originam apenas na ação e nos interesses individuais, e a difundida a aceitação de uma coerção social sobre os atos de cada pessoa, seja ela através de valores compartilhados ou do próprio do intercâmbio imediato entre duas ou mais pessoas, resta ainda estabelecer como será feita a abordagem desses fenômenos adjetivados como sociais. É o problema da metodologia e da objetividade. A observação dos fenômenos sociais pode ser feita em duas dimensões. A primeira diz respeito à sua ordem, à função que referida ao conjunto lhe confere coerência, afinal os fatos sociais não são simples repetições, sujeitas ao acaso. Esta é o que poderíamos chamar de abordagem estrutural desses fenômenos, que enfatiza as características que permitem a manutenção da sociedade. A segunda, em complementação, se refere exatamente à ação individual em intercâmbio com aquela estrutura, pois uma vez entendido que se ela só se manifesta através dos indivíduos, estes têm, em maior ou menor grau, a possibilidade de alterá-la. É a abordagem dinâmica, e que procura indícios para entender o processo de mudança social. A escolha por uma abordagem estrutural ou dinâmica dependerá obviamente do objeto a ser estudado, mas nenhum deles poderão ser completamente compreendidos através do emprego de uma só delas, e ambas precisarão de fundamentos teóricos e práticos. Podemos ainda separar a sociologia em duas vertentes: a macrossociologia, que estuda as sociedades a partir do todo e que procura estender suas conclusões a todas elas; e a microssociologia, que faz a observação através das partes e que limita suas considerações a aquele conjunto. Ambas as vertentes podem ser realizadas tanto por análises estruturais quanto dinâmicas.
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STATUS
De maneira genérica defini-se status como a posição de um indivíduo ou de um certo número deles dentro de uma organização, de acordo com as formas segundo as quais eles interagem uns com os outros e com a própria organização como um todo. É a partir do status que são estabelecidos o papel e a função de cada pessoa para a coletividade. Assim, essa posição tem duas dimensões, uma vertical e a outra horizontal. A dimensão vertical é constituída pelas relações de uma pessoa com as outras situadas em outros status, tanto acima quanto abaixo dela. A dimensão horizontal é composta pelas relações entre indivíduos de mesmo status. Em uma escola é possível identificar diversos níveis de status: os diretores, os professores, os alunos, os funcionários. Os alunos se relacionam verticalmente com diretores e professores, e horizontalmente com os outros alunos. É necessário notar então que a distribuição dos status obedece sempre a uma hierarquia, seguindo a sua maior ou menor importância para o funcionamento da organização. Não se trata aqui de dizer que os professores são mais importantes para escola que os alunos: certamente ela não existiria sem qualquer uma dessas partes. Mas com certeza a falta de um professor traz conseqüências mais sérias para o conjunto que a falta de um aluno. O status está sempre ligado a um certo número de qualidades que devem ser preenchidas pelo seu ocupante, e que assim facilitarão o desempenho do papel a que ele está associado. É a partir da observação dessas qualidades que o status poderá ou não ser atribuído a um indivíduo. O professor deve ser graduado em alguma área do conhecimento (ter um diploma), ter paciência e ser didático (ter facilidade para se fazer entender), caso contrário não será reconhecido como um professor legítimo. Mas além de exigir algumas características especiais para ser reconhecido, o status também confere ao seu ocupante algum poder, na medida em que lhe permite agir de forma relativamente autônoma e determinar o comportamento de indivíduos situados em status inferiores. O professor pode planejar a aula como bem entender, escolher sua duração e os métodos que serão utilizados (gráficos, mapas, laboratórios, vídeos, etc.), assim como fazer com que um aluno que esteja se comportando mal saia da sala de aula. O status não deve ser confundido com o papel, uma vez que tem o primeiro tem uma amplitude maior que o segundo. Uma pessoa pode ser respeitada por seu status mesmo fora do grupo em que atua. Ouvimos com atenção a opinião de um médico sobre a política de saúde de um governo independentemente dele estarmos ou não sendo examinados por ele. O status, ainda que seja derivado do desempenho de um papel, não depende exclusivamente dele para ser reconhecido. Há uma série de outras qualidades que também contribuem para a atribuição de um status, como a experiência, o nível de estudos, a situação financeira, a competência, etc. Um status pode ser formado ainda por diversos papéis. Um líder político, ao mesmo tempo que coordena as atividades de um partido, pode ainda atender a clientes importantes em seu escritório de advocacia, e dar palestras sobre a importância da livre concorrência para o progresso econômico. Nenhuma dessas atividades isoladas seria suficiente para lhe conferir aquele status, mas sim a combinação da sua capacidade de oratória com seus conhecimentos das leis, e da existência de interesses que compartilha com outras pessoas. O status é portanto resultado de atividades específicas de cada papel aliadas a qualidades pessoais que facilitam o seu desempenho.
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SUICÍDIO
O estudo do suicídio através de uma perspectiva maior que a individual é um dos trabalhos que proporcionaram a afirmação da Sociologia como disciplina científica autônoma, na virada do século. Realizado por Durkheim, ele se baseia em uma análise as taxas de suicídio em seis países europeus ao longo de trinta anos, demonstrando que elas variam de acordo com a situação enfrentada por cada um deles. Quando atravessam períodos de estabilidade, as taxas refletem o crescimento populacional. Mas quando as sociedades encontram-se em períodos de crise ou de mudança, seja por fatores externos ou internos, o índice de suicídio cresce mais rapidamente. São os casos da França por volta dos agitados acontecimentos da Comuna de Paris (1848), da Alemanha durante sua unificação (1866) e da Inglaterra após o crescimento provocado por seus lucrativos tratados comerciais (1868). Durkheim procurava demonstrar que os suicídios não apresentam unicamente causas psicológicas ou patológicas, sendo também influenciados por aspectos sociais, e criava assim o campo de estudos para a ciência que se formava. Para Durkheim, são quatro as situações em que o suicídio apresenta relações com a sociedade, e estão dispostas em dois pares. O primeiro par refere-se ao grau de assimilação pelo indivíduo dos valores da sua sociedade, ou seja, do seu grau de socialização. Em ambientes onde as pessoas colocam os próprios valores acima das convenções coletivas, há um grande individualismo. Isto pode gerar uma incapacidade em arranjar respaldo para as explicações e objetivos da sua própria conduta. Desconsolado com a fragilidade dos próprios valores, o indivíduo pratica o suicídio egoísta. É o mais comum dos suicídios. Por outro lado, há situações em que o indivíduo absorve de tal forma os valores da sociedade que não ele não se sente dono da própria vida, e a oferece como uma espécie de sacrifício ritual. Este é o suicídio altruísta e vem do respeito rígido às normas. Seus exemplos clássicos são o da esposa que se mata logo após a morte do marido, o dos velhos esquimós que abandonam a aldeia rumo ao gelo quando ultrapassam uma certa idade e o dos escravos que se fechavam nas pirâmides com as múmias de seus faraós. O segundo par refere-se a intensidade da coerção social sobre os indivíduos. Em situações de coerção muito fraca, o indivíduo fica desorientado e não percebe claramente os objetivos socialmente valorizados. Ocasionado pela ausência ou pela fraqueza das normas sociais, este suicídio é classificado como anômico. Em oposição a este, há situações em que as normas são tantas e tão rígidas que o indivíduo sente-se impotente perante elas. Nessas condições aparecem suicídios fatalistas, que são último recurso de indivíduos em becos sem saída que a própria sociedade os colocou. Os camicases japoneses são um exemplo disso: na ausência de armamentos pesados, os pilotos usam o próprio avião como arma. A pesquisa de Durkheim, se teve méritos incontestáveis na sua época, apresenta para os padrões de hoje um universo de análise bastante limitado. Para ampliá-lo seria necessário unir a Sociologia e a Psicologia, algo que Durkheim queria exatamente evitar. Só assim seria possível conhecer os motivos, estabelecer uma distribuição desses motivos e localizar os fenômenos sociais que influem na variação dessa distribuição no tempo e no espaço, tarefas que Durkheim realiza de maneira extremamente simplificada. Além disso tal estudo implicaria em dificuldades crônicas para obtenção de informações, onde a definição da metodologia seria fundamental: como avaliar casos em que não são deixados nenhuma espécie de bilhete? Será válido entrevistar parentes? E suicidas em potencial? E as pessoas que tentaram se suicidar e não conseguiram?
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TEORIA
Teoria é um termo utilizado com muita freqüência no vocabulário da Sociologia, assumindo conteúdos um pouco diferentes dependendo do contexto em que aparece. Em seu sentido mais restrito ela é um conjunto de proposições que formam um sistema, isto é, que estão encadeadas coerentemente, a partir do qual é possível presumir alguns efeitos ou tirar algumas conclusões que podem ser confrontados com dados provenientes da observação concreta. Essa definição é extremamente segura e ampla, podendo mesmo ser estendida a outras ciências. A diferença entre elas estará nos objetos dos quais trata cada teoria, e nos métodos utilizados para construí-la. Em tempo, uma das aplicações comuns pelos sociólogos identifica teoria com metodologia. A escolha dos procedimentos de abordagem do objeto passa muitas vezes por optar por este ou aquele ponto-de-vista, opção que se baseará em conhecimentos e fórmulas adquiridos através de estudos anteriores. Outras utilizações freqüentes assemelham teoria a idéias diretrizes, pressupostos que orientam a argumentação ou a pesquisa desde o seu início. Na idéia de teoria cabem ainda análise e a avaliação de conceitos (inclusive os pressupostos de outras teorias), e quaisquer interpretações após a observação dos fatos. Voltando a idéia de teoria como um sistema de proposições que se sustenta perante confrontações empíricas, a generalização de conclusões e conseqüências a partir dela torna-se uma questão de fundamental importância. Quando uma teoria se mantém apesar de todos os testes a que é submetida, ela pode dar origens a leis ou modelos exatos, como as fórmulas de Física, Química ou Matemática. No entanto as teorias sociológicas que tentaram estabelecer modelos aplicáveis a todas as sociedades, e portanto determinar leis que regem as relações sociais, não mantiveram sua força e sua integridade por muito tempo depois da morte de seus criadores. Justamente pelas sociedades abrangerem fenômenos de uma imensa variabilidade, tamanhas generalizações acabam sendo "forçadas". Uma das teorias que tentaram abarcar todas as sociedades e que ainda tem algum vigor é a crítica marxista ao capitalismo, que mistura elementos sociais e econômicos, mas cujas conclusões mais avançadas são alvo de contínuos ataques tanto de economistas quanto de sociólogos. Outras tentativas amplas, como a "teoria geral da ação" de Parsons, que pretendia montar o modelo de organização social e de relações entre os indivíduos com base nos papéis que cada um assume ao longo da vida, fracassaram a serem levadas além de alguns limites e aplicadas em outros ambientes. Em geral uma teoria formulada em uma sociedade dificilmente poderá ser confirmada em outra sociedade que não seja parecida com a primeira. Além disso, teorias concebidas em contextos estáveis raramente se mantêm em períodos de mudança social e vice-versa. Em grande parte das vezes na Sociologia a teoria apresenta-se sob a forma de um paradigma, ou seja, de um modelo de referência. Ao criar um modelo ou um "tipo ideal", o cientista social não pretende encontrá-lo de forma idêntica no mundo material. Menos que isso, ele quer comparar os exemplos reais com o "tipo ideal" pré-estabelecido, tanto para aperfeiçoa-lo quanto para entender alguns aspectos do objeto concreto. Os conceitos de comunidade e sociedade de Tönnies podem ser entendidos como "tipos ideais": não existem separados, mas estão combinados de diferentes formas nas organizações sociais, servindo de instrumento para compreender cada uma delas. Também são "tipos ideais" as três categorias apresentadas por Weber em sua teoria da dominação legítima, bem como seus os quatro "tipos" de ação social. As quatro classificações estipuladas por Durkheim para seus estudos sobre o suicídio podem ser entendidas da mesma maneira.
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TRADIÇÃO
Consideramos como tradição um conjunto de práticas e valores que estão profundamente enraizados nos costumes de uma sociedade, e que portanto variam de uma para a outra. Nesse sentido tradição e cultura são conceitos muito próximos, que podem ser resumidos como o sistema de características básicas que permite identificar a sociedade em questão. Os comportamentos tradicionais foram apresentados por Weber como uma das formas puras de ação social. São aquelas ações orientadas pelo hábito, pela sua repetição mais ou menos regular, pela noção de que "sempre foi assim". São atitudes condicionadas, pré-reflexivas, ou seja, o indivíduo não pondera sobre as causas do seu comportamento tradicional. Antes disso, ele o repete porque sabe da segurança e da eficácia de seus efeitos. Em poucas palavras, a tradição é a preservação do que se provou eficaz e necessário. Quando relacionamos os comportamentos tradicionais à esfera do poder, vemos que eles tendem a constituir formas de dominação legítima, isto é, maneiras de se exercer influência sobre o comportamento de outros homens sem o uso da força, que no caso seriam fundamentadas em experiências anteriores que testaram e comprovaram sua qualidade. O estudo das tradições aparece na sociologia com uma postura ambígua. Ela é simultaneamente uma ferramenta eficiente para explicar a manutenção da ordem da sociedade e um obstáculo para entender as mudanças que ocorrem em seu interior cada vez com maior rapidez. A verdade é que com o advento da sociedade industrial, as tradições foram perdendo espaço para a ciência e a tecnologia, que impõe avanços incessantes na vida cotidiana. Se antes a tradição regulava as relações entre os indivíduos juntamente com a religião, com a especialização o número de situações em que ambas (tradição e religião) são testadas aumenta enormemente. A dificuldade da tradição em acompanhar as mudanças deixa espaços vazios para a ação individual espontânea, e muitos sociólogos relacionaram (nem sempre da mesma maneira) a diminuição do alcance da tradição a expansão do liberalismo e do individualismo. Alguns sociólogos colocaram a tradição ao lado da história, como uma fonte de informações e experiências para auxiliar em futuros acontecimentos. A tradição não só manteria o passado como ajudaria a interpretar o presente para influir sobre ele. Uma coisa é certa: as tradições evoluem e se transformam com a sociedade. Elas podem incorporar novas práticas e tendências, novas necessidades criadas pela sociedade. A tradição assume assim não a forma de um modelo de sociedade acabado e definido, mas sim um núcleo estruturado que vai sendo preenchido pelos indivíduos de acordo com as condições impostas pelo seu desenvolvimento, e que impede que ela se dissolva. Novamente a tradição se liga a identidade exclusiva de uma população, a sua própria cultura.

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