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DICIONÁRIO
POLÍTICO
Estes verbetes foram pesquisados por Maurício Assumpção
Moya, Bacharel em Ciências Sociais e Mestre em Ciência
Política pela Universidade de São Paulo.
Se você tem dúvidas ou não encontrou algum verbete
aqui, escreva para
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U V
UTILITARISMO
Para seus formuladores, a doutrina utilitarista é uma maneira de
explicar como as relações sociais são resultado das ações individuais
e muitas vezes egoístas. Segundo eles o motor da sociedade é alimentado
pelo desejo individual de satisfazer os próprios interesses. Cada
um perseguindo o melhor para si estaria contribuindo para a melhoria
das condições de todos. Esta linha de pensamento fundamenta-se portanto
em torno da existência de objetivos individuais que são incessantemente
perseguidos, objetivos os quais são determinados de acordo com um
cálculo de utilidade onde são confrontadas as vantagens e as desvantagens
de uma ação. Em outras palavras, a partir da afirmação de que os
indivíduos tendem sempre a buscar o máximo de prazer e o mínimo
de dor, o utilitarismo sustenta que toda ação individual é resultado
de uma comparação entre seus custos e seus benefícios, e que só
há ação quando este resultado é positivo para o agente. Um exemplo
clássico de comportamento utilitarista é o do comerciante que para
aumentar sua clientela e seu faturamento, abaixa os preços ou aumenta
a qualidade de suas mercadorias. Este procedimento impele os outros
comerciantes a fazer o mesmo se não quiserem perder fregueses, e
no final das contas os maiores privilegiados são os consumidores,
que obtêm produtos melhores ou a preços mais baixos. Outro exemplo
é o de um jogador de futebol que treina duro para chegar a seleção
de seu país, e ao fazê-lo melhora o rendimento da equipe de seu
clube, agradando a técnico, diretores, sócios e torcedores. Como
se pode ver, a teoria utilitarista valoriza o individualismo. Como
conseqüência, só pode ser aplicada coerentemente onde existam condições
de concorrência e competição que tornem a individualização aceitável.
Por isso mesmo o utilitarismo está nas bases do pensamento econômico,
mas tem bastante influência nos ramos da sociologia que enfatizam
a ação e o comportamento individual no funcionamento das organizações
sociais, como a teoria da ação coletiva. No entanto não se pode
chegar ao extremo de limitar a conduta individual às ações sociais
racionais, ao que tendem os utilitaristas, que aliás denominam seu
método de pensamento de "teoria da escolha racional". Nem toda conduta
social é fundamentada em um cálculo entre fins (benefícios) e meios
(custos). Dificilmente um jovem que reparte o último pedaço de bolo
com seu irmão está calculando o bem que fez ao irmão ou o prejuízo
de não ter comido o pedaço todo. Provavelmente ele o fez porque
gosta do irmão, ocorrendo neste caso uma ação social afetiva, ou
porque eles sempre dividem o último pedaço de qualquer coisa, o
que se trataria de uma ação tradicional, ou ainda por ambos os motivos.
Assim, a "teoria da escolha racional" pode ser uma ferramenta analítica
bastante útil, desde aplicada em objetos adequados.
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UTOPIA
O termo utopia é aplicável a todas as formulações teóricas que pretendem
conceber uma organização social com características absolutamente
boas e desejáveis. Historicamente, esse conceito aparece simultaneamente
com os primeiros pensadores socialistas, que tentam estabelecer
um modelo hipotético de sociedade ideal, onde todos teriam o mesmo
acesso aos bens necessários para sua satisfação. Destaca-se portanto
na utopia o seu caráter de impossibilidade de realização. Sem grandes
perdas para seu conteúdo, é possível assemelhar uma utopia a uma
ficção. Mas se uma utopia é algo impossível de ser realizado, qual
a sua importância para a Sociologia? A verdade é que a utopia serve
como um alvo, um objetivo a ser perseguido. Ainda que seja impossível
de alcançar, quanto mais próximo chegarmos dele melhor. A erradicação
da pobreza é uma meta utópica: ainda que impossível, é perfeitamente
desejável e portanto digna de ser defendida. A utopia tem assim
um caráter de modelo para referência. No pensamento social, toda
utopia é construída comparando-se o que a sociedade é e o que se
espera que ela deva ser. Com freqüência ela é fundamentada em oposição
a valores e situações sociais considerados prejudiciais aos indivíduos.
É portanto resultado de um desejo de anular os efeitos da convivência
social que são tidos como negativos. Podemos assim dizer que há
um componente ético na utopia: ela baseia-se em julgamentos do que
é certo e do que é errado para uma sociedade ou parte dela, e a
partir desse julgamento reconstrói teoricamente a sociedade sem
os problemas anteriores. Em virtude dessa orientação dada por escolhas
particulares do que é bom ou ruim, toda utopia pode ser considerada
como uma ideologia. No entanto, a possibilidade de especulação que
a utopia proporciona é essencial para a construção de novos valores.
Em momentos de grandes crise ou de transformações intensas, as pessoas
muitas vezes ficam desorientadas, pois não percebem objetivos ou
comportamentos que sejam socialmente desejáveis. A sociedade lhe
parece uma confusão de símbolos e atitudes sem sentido. Nesses casos
a utopia construída no período anterior pode se tornar o único código
de idéias que o indivíduo ainda reconheça, ajudando-o a se estabilizar.
Nessas condições em que ela se apresenta como última orientadora
da ação, a utopia pode gerar comportamentos terroristas e acósmicos.
Ambos são causados pela implementação intencional dos ideais pregados
naquela utopia: o terrorismo é sua aplicação a outros, geralmente
de forma violenta, devido a intolerância de seus seguidores causada
pela própria situação instável que enfrentam; o acosmismo é sua
forma pacífica, onde os ideais são aplicados a própria pessoa. São
utopias acósmicas o retiro espiritual de um eremita e a valorização
da vida que impede o vegetariano de comer proteína animal. Nesse
ponto é preciso lembrar que a utopia também é uma característica
encontrada em algumas religiões, especialmente as milenaristas ("um
dia virá..."). São religiões que fundamentam sua ética em situações
imaginárias ainda por ocorrer, mas o que não impede que seus fiéis
comportem-se como se já estivessem nelas.
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VALORES
Quando observamos uma sociedade em sua totalidade, vemos que os
"valores" não são unicamente dinheiro e bens materiais. Se o fizermos,
estaremos enfatizando exageradamente sua esfera econômica (que já
é bastante exagerada na realidade), e deixaremos de perceber outras
"coisas valorizadas", como a educação, a paz, a hospitalidade, os
esportes. Reunindo diversas interpretações sobre os "valores", é
possível afirmar que eles são níveis de preferência estabelecidos
para objetos, conhecimentos, comportamentos ou sentimentos, tenham
eles origem individual ou coletiva. Mas todos eles geram algum tipo
de conduta, isto é, servem de referência para a ação. Algumas pessoas
valorizam a informação, outras uma partida de futebol. Há quem valorizasse
a coleção de discos, ou então uma fazenda no Mato Grosso. Assim
o primeiro fará uma assinatura de jornal e acordará quinze minutos
mais cedo para lê-lo, o segundo poderá passar algum tempo na fila
dos ingressos, e ainda correr alguns riscos dentro do estádio. O
terceiro ficará horas ouvindo os discos, e o quarto estudará, trabalhará,
fará investimentos. Os valores, assim como os desejos e os interesses,
são infinitamente variáveis. É por isso que ao conviverem, os homens
tendem a valorizar as mesmas "coisas", de forma que essa convivência
se dê harmoniosamente. Os valores sociais são aqueles que são gerados
pela situação de associação em que os homens se encontram e que
contribuem para sua própria manutenção. Por isso mesmo sociólogos
como Durkheim atribuíram aos valores a característica de coerção
social, ou seja, o poder de induzir pessoas a um determinado comportamento.
A transmissão desses valores comuns de uma geração para outra é
chamada socialização, que também é uma forma inconsciente de coerção
social. Toda organização é fundamentada em valores comuns. Mas pela
própria natureza humana, eles podem assumir os mais variados conteúdos:
são as crenças e os ritos de uma religião, a eficiência e a qualidade
em uma empresa, a solidariedade e o respeito em uma família. Existem
mesmo exemplo de sociedades que valorizavam a guerra, como Esparta
ou algumas tribos tupinambás. É ainda muito conhecida a valorização
religiosa dos bovinos pelos hindus. Freqüentemente os valores estão
associados a instituições, podendo mesmo ser considerados bastante
semelhantes, dependendo da interpretação que se dê a essa última.
Na sua forma mais genérica eles são praticamente iguais, e correspondem
a condutas previamente concebidas segundo preferências (conscientes
ou inconscientes). Mas alguns autores trataram por instituição apenas
aquelas valorizações instituídas pela sociedade, que podem ou não
resultar em organizações que as mantenham. Os autores que preferem
o termo valores, percebem nas instituições as suas representações
visíveis, seja como comportamento individual ou organizado. Um conjunto
de valores constitui uma ética, ou seja, princípios coerentes que
orientam a ação. Cada um pode ter sua ética, mas não é o que tende
a ocorrer quando estamos organizados. Para que os comportamentos
sejam compatíveis, os valores devem estar interligados, assimilando-se
a um sistema. São os sistemas de valores ou as éticas que dirigem
uma sociedade. Mas como qualquer sistema, uma alteração em um dos
elementos afeta todo o conjunto. A esse fato se deve a força de
cada valor, uma vez que cada um deles é fundamental para a estabilidade
e a harmonia da sociedade. Assim conclui-se que são sinais de crise
ou de mudança (para melhor ou pior) as situações onde ocorrem diferenças
significativas de valores dentro de uma sociedade. É o caso das
torcidas organizadas, que por valorizar o futebol acima de tudo,
e seu time acima do futebol, esquecem-se da segurança e da amizade
e proporcionam espetáculos de violência. Um caso eminente onde houve
conflitos de valores que resultaram em mudança social é apontado
por Weber em sua interpretação da expansão do capitalismo a partir
do século XVI: a adoção de uma ética pelos religiosos reformados
europeus que valorizava o trabalho e a riqueza, em contraposição
a idéia do trabalho como um mal necessário e a condenação do lucro
pela Igreja Católica.
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VIOLÊNCIA
Consideramos violento todo o ato que quebra os padrões da comportamento
e põe em risco a convivência harmoniosa entre os homens. Segundo
propôs Hobbes em seu Leviatã, os homens são movidos pelos mesmos
desejos, e sendo os bens e honras existentes insuficientes para
satisfazer a todos eles, é inevitável a competição. Para regular
essa competição e impedir que haja a destruição mútua é que nos
organizamos em sociedade, observando algumas regras que se extenuem
a todos. A violência é portanto algo que rompe com essas regras,
e equivaleria à situação de "não-sociedade". No entanto, apesar
de ser definida com relação a normas relativamente claras, a classificação
de um ato como violento apresenta um elevado grau de subjetividade.
Existem atitudes que são consideradas violentas por algumas pessoas
e não por outras. Uma luta de boxe é violenta? Sob alguns aspectos
sim, sob outros não. Se considerarmos exclusivamente as convenções
sociais, ele o será, pois implica em atacar a integridade física
de uma pessoa. Mas se considerarmos estritamente as regras do esporte,
só haverá violência se ocorrerem golpes baixos ou um dos lutadores
for realmente "massacrado" pelo outro. O que falar então de um filho
que desobedece à mãe? Esta será ou não uma atitude violenta? De
fato a determinação de um ato como violento depende mais da percepção
das partes envolvidas do que do ponto-de-vista do observador. A
violência é determinada pelos valores, e os valores variam de pessoa
para pessoa. Há mesmo quem diga que o futebol é um esporte violento,
e em certos casos realmente o é, no entanto ele continua a ser o
esporte mais praticado no mundo. Alguns autores chegaram a afirmar
que a violência, assim como o crime, é resultado de falhas no processo
de socialização do indivíduo. Neste caso ele não reconheceria seu
ato como violento. Essa explicação talvez tenha real significado,
mas não explica a prática de violência por grupos organizados. Em
algumas situações a violência é vista como a única alternativa para
a solução de um problema. São exemplos disso o terrorismo e a guerrilha
praticado durante a vigência de regimes autoritários, além própria
guerra entre dois países. Será violento um soldado que atira em
um inimigo? Neste caso há quem fale em violência justificada. Mas
se uma violência é justificada então ela não é violência nos moldes
do pensamento clássico, mas trata-se antes de um mal necessário.
A violência policial será um "mal necessário" ? Talvez, dependendo
da periculosidade do(s) criminoso(s) ou das condições enfrentadas
pelos policiais. Como o Estado conseguiria manter a ordem se não
pudesse, no limite, usar da violência? A própria História nos mostra
que os acontecimentos que marcaram época têm alguma dose de violência.
É o caso da expansão e queda do Império Romano, do bloqueio do Mediterrâneo
realizado pelos árabes, a fuga dos servos para a cidade, a Revolução
Francesa, as guerras mundiais. A violência, justamente por estar
fora da sociedade, é uma das principais maneiras de modificá-la.
Não se trata aqui de defender a violência, em absoluto. Mas é necessário
reconhecer a sua importância, porque ela sempre está presente em
toda e qualquer sociedade. É bom manter distância dela, mas nunca
esquecer que ela existe. Tentar eliminar a violência certamente
é uma utopia.
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